Para voar
Gaveta entreaberta.
Papéis de seda, leves, coloridos. A tesoura
recorta e arredonda
formas para em seguida rasgar, envergonhada.
Mas o desejo fica. Lobo inquieto.
Ante a finura da seda, novamente - desejo e
imaginação.
Formas completas?
Sim.
Um par de asas, lindas!
Algo meu, espaço clareado, ensaio o voar.
Cores na penumbra?
Ninguém acreditaria! Não há com quem falar.
Quando a ânsia cresceu, tintei. As mãos se
juntaram aos olhos,
separei as cores e criei, me embriaguei.
E, estando tudo em mim uma pequena fresta se
abriu.
Ousei!
Olho faminto, mãos desejosas, pensamento a
vagar.
Então observei, senti, toquei e foi ai que
escrevi.
Escrevi o mundo estranho que me habita, a
ternura que vaza sempre,
aquela que vive em mim.
Timidamente, febrilmente.
Espaço clareado, aquecido, janelas abertas,
trilhas alongadas.
Nem de asas preciso, vôo sem sair do lugar.