Mulher de águas
Tarde
cinza chuva fininha. Sentada na areia,
Elena observa o mar.
Gosta de dias chuvosos, gosta do mar.
Gosta quando se sente liquefazer de
paixão.
Gosta de águas, quaisquer águas.
Por isso não entende esse não chorar.
Sente o sofrimento queimar, a alma, o
corpo.
Mas, chorar?
Não, não consegue. Até tentou. O olho
apenas umedeceu.
Também não agüenta ver ninguém chorar.
Fica sem saber o que fazer.
Um abraço? Um doce? Uma palavra? Um grande
silêncio?
É tudo confuso. Prefere se afastar. Não
sabe lidar com lágrimas. Não as tem.
Mas hoje, observando o mar descobre -
algumas pessoas são sólidas, outras
líquidas.
Terramar. Assim é a vida.
Ela se descobre líquida, por isso não
chora. O seu oceano interno pode vazar
romper as barreiras de seu corpo e a
destruir. As pessoas sólidas têm de
chorar, a terra precisa da água, pra não
ressecar, não murchar o campo. Não se
destruir.
Elena sorri, e observa... Seu mar.
maria
izabel