Lembranças
A mão
grandona passou através de uma pequena
fresta do vidro do carro e segurou o
movimento da passageira que tentava
bloquear a passagem.
A explicação veio rápida:
-“É um assalto, dá esse celular aqui.”.
Apenas lembranças esparsas de movimentos
lentos. Mãos estranhas invadindo o espaço.
Espanto. A entrega da conversa fácil para
mãos alheias. Quatro delas. E dois peitos
alegres - laranja e vermelho. Mãos e cores
apenas. Sem rosto.
- Sai, sai, acelera, vai embora.
Rapidamente obedeceu:
No vidro do carro as marcas do dedo. Na
manhã o som da voz. E só.
Atravessou o farol. Parou. Não era sua
primeira vez. Mas as pernas insistiam em
tremer.
Também foram rápidos os acontecimentos que
se seguiram. A polícia chegando, a ordem
pra esperar, que ela insistia em querer
descumprir.
Mãos e cores de novo, cinza e preto,
pedaços de olhos e de bocas se
movimentando. Sérias.
No retorno um boné e dentro dele um
celular...ensanguentado.
- É seu?
Desespero dela na pergunta:
- E eles, e eles?
Agora apenas dois peitos - laranja e
vermelho. Corpos e cores calados com
rostos.
maria
izabel