Bernardo
Bernardo vivia só.
Vivia só e amava a cidade.
Cidade grande, poluída, violenta e amante.
Ele era amável! Amava as ruas cheias, os
becos encardidos, onde dormem os que não
tem o pouco da vida, amava as estações de
trem, de metrô que levam e trazem gentes
que trazem e levam sonhos e tristezas.
Amava também as estações, as que fazem
florescer as árvores, cada uma no seu
tempo, pois que dependem do tempo. Tempo
certo, preciso e impreciso. E o tempo, no
seu tempo, senhor total dele, faz o que
quer. Chove e alaga, pois é dele o tempo
das enchentes, deixa a seca comer o broto
novo da flor que então não vai vingar. Mas
o senhor dos destinos das plantas e das
gentes traz também o tempo do enfeite, faz
florir, faz brotar, e desenha no chão com
as pétalas já mostradas, um tapete de
flor. Porque o vento que descabela as
moças e as árvores obedece ao tempo.
Bernardo escuta o vento e compreende esse
tempo, que gela seus ossos debaixo do
viaduto, e clareia sua pequena coberta nas
noites de lua. E quando as noites são
quentes, sente desejos, completos desejos,
de gentes pela cidade, pela quietude do
tempo, pelo calor de outro corpo.
Bernardo vivia só, mas não era só, tinha
consigo a cidade e nela as gentes, as
plantas, os tempos e os ventos.
maria
izabel