Águas de
verão
Verão em São Paulo. Tempo quente. Em casa a
discussão de sempre. Ar condicionado versus
janela aberta. O partidário do ar, admito,
tem razão. Há dias sem a menor brisa. Nada
se movimenta. Mas só de pensar na
trabalheira que vai ser furar a parede, e
nas janelas fechadas do depois...
- Arre, resmunga o marido. Não sei como você
agüenta este calor. Depois que se acostumar
com o ar não vai querer outra coisa.
Então nestas horas fico sem argumento, mas
passado algum tempo, volto-me pra janela.
Não sei se é algum resquício do interior
onde fui criada e onde ela é sinônimo de
distração.
Seja como for o marido tenta me fazer mudar
de idéia:
- Esse negócio de gostar de janelas é coisa
de gente fofoqueira.
Nem ligo, afinal minha janela fica no oitavo
andar, na lateral esquerda do único prédio
desta rua que é uma grande ladeira. E é uma
bela janela. Larga, deste tipo que encosta
no teto e desce ao chão, abrindo-se para uma
sacada sobre uma rua estreita, com pequenas
e antigas casas, cheias de árvores nas
calçadas e abacates nos quintais. E é nesta
pequena viela que se juntam os adolescentes
da escola da esquina para beijos e viagens.
Da janela também vejo cair à chuva. Todas as
tardes. Também gosto dela. Afinal a água
desce tranquilamente. Tal qual lágrima que
tem de vazar. Esvaziar. Pequenas discussões.
Mas aos poucos engrossa e sem respeitar
calçadas ou ruas despenca ladeira abaixo.
Como raiva acumulada, incitada, que
extravasa. Rola, enrola, aumenta até
desferir com estrondo seu golpe. Sentimentos
acumulados, abafados. Palavras não ditas.
Enchentes carregadas de tormentos, intuições,
lixo se despejando. Nervosamente. Chove!
É verão em São Paulo. O ano se prenuncia
quente.
Da janela nem sempre compreendo a chuva, ela
começa no vento, fina, cortante, insistente.
Como essa discussão absurda sobre ar e
janelas. E se joga contra minha vidraça. Nas
venezianas. Em meu rosto. Tal qual duras
palavras, amenas palavras, mas
insistentemente doloridas.
Então entra novamente em cena a
possibilidade do ar. E a conversa sempre
começa da mesma forma:
- Você não sente como a casa está abafada?
Não se respira direito aqui dentro.
Claro que me sinto mal, com essa reclamação
tão constante. Mas, algumas horas depois.
Ânimo acalmado abro as janelas. Esquecida a
discussão sobre o ar quero espiar a terra
lavada, surtada, revelada pela tempestade em
toda sua tormenta. Não sei se com isso a
vida se modifica.
Mas sei que lá está a cidade.
Momentaneamente diferente. Um breve e triste
intervalo. Enchida, cansada, soterrada.
Árvores soltas da raiz. Árvores com troncos
rachados ao meio. Árvores descabeladas. Como
velhas senhoras algumas se mantêm mas perdem
folhas, frutos, graça. Outras se quebram.
Sem referências, agitam-se enlouquecidas.
Depressivas. E a cidade amanhece acalmada.
Resultado de uma noite de choro. As cores
surpreendentemente claras. Tranqüilas.
Em casa a temperatura aumenta. Argumento,
mas cedo. Não chovo, negocio. Nada de ar.
Assim instala-se o ventilador de teto, mas
desde que minha janela possa permanecer
aberta. E a vida modificada momentaneamente
se apresenta com dias de vento, noite de pás.
Os dias se mantêm claros e as noites escuras.
Com nossas chuvas, brisas, ventos e
temporais.