Abra logo
esta porta!
Abram esta porta. Me tirem daqui. Me ajudem.
O pedido de socorro que atravessou a solidão
daquela tarde de sábado vinha do elevador de
serviço. Tonta de sono, sem entender direito o
que acontecia, sai pela cozinha em direção aos
gritos.
Alguns vizinhos chegavam ao mesmo tempo:
- Acabou a luz, alguém ficou preso.
- Pela voz parece a Bia, dizia uma vizinha.
- Ih, a Bia, ela tem medo de elevador?
A gritaria continuava agora ao som de pancadas
na porta do elevador
- Socorro, pelo amor de Deus me tirem daqui, a
voz era um choro só.
O zelador chegou. Trazia uma lanterna e a
chave de fenda na mão.
- Dona Bia tenha um pouco de paciência, a luz
acabou. Eu vou lá na casa das máquinas ver se
consigo destravar no manual. Procure se
acalmar. Não vai demorar muito.
- Agooora quero sair agora. A voz denotava
cansaço.
Fiquei assustada, o murmurinho no hall crescia.
- Bia, dizia dona Fernanda, quer que te traga
alguma coisa? Posso fazer um chá pra quando
você sair. Não se desespere.
- É Bia, dizia uma outra de cabelos
branquinhos, não se desespere, para Deus nada
é impossível.
- Quero sair, quero sair.
- Seu marido está em casa? Quer que eu vá
chamá-lo?
- Ele não está, saiu com as crianças. Estou só,
vou morrer sozinha.
- Calma dona Bia, calma, ninguém vai morrer,
os homens estão mexendo na casa das máquinas.
Eu olhava aquilo tudo quase fascinada. Não
tenho medo de elevadores, tenho outros medos.
- Sabe, alguém me dizia, eu também tinha isso.
- Isso?
- É, medo de elevador, agora não tenho mais.
Também, nunca mais entrei num, só uso as
escadas, vai que o medo volte.
- Abram logo esta porta.
Aquela de um momento para outro alguém abriria
A porta do porão fechou-se atrás de mim.
Esconderijo perfeito! Ninguém me acharia.
Olhei em volta procurando o local ideal.
Umas caixas cheias de pó, algumas latas de
tinta fechadas, saldo da última pintura na
casa, uns armários antigos, onde ficavam tudo
considerado,” non grato”, no atual momento da
casa em que morávamos.
Escondi-me numa lateral do armário que não
estava encostada na parede, abaixei e quieta
fiquei, escutando o pegador procurar. Foi ai
que vi, parada, um pouco acima da minha cabeça
na lateral do armário uma barata, com suas
anteninhas direcionadas para mim. Abafei o
grito na mão. Ela, a barata me olhava. Parada.
Esperando meus movimentos. Eu a olhava. Parada.
Aterrada. Esperando seus movimentos. E assim
ficamos, de tão preocupada com a barata, me
esqueci da brincadeira. Ela imóvel como sempre
ficam quando são finalmente encurraladas, à
espera do golpe. Me entristeci, senti pena.
Lugar escurecido, quieta, adormeci.
Acordei com minhas irmãs, que preocupadas se
juntaram aos amigos e me descobriram atrás do
armário. A barata havia ido embora. Aquele
antigo monstro tinha agora o tamanho pequenino
que sempre teve, quando abri a porta do porão
esse medo estava no seu devido lugar.
Dona Bia destravei. Vou tentar abrir.
A voz de Bia chegava num choro lamentoso:
- A porta continua fechada, continua fechada.
Ela nem tinha idéia do quanto O desespero a
impedia de enxergar o tamanho real daquela
situação de medo.
Eu tenho medos?
Tenho, todos os que fazem parte do pacote de
se viver em cidade grande.
Pronto, conseguimos.
Silêncio !
Dentro do elevador uma mulher aterrada,
encostada, desmaiada.
Algumas portas são muito difíceis de abrir.
Alguns medos se agigantam. A palavra depressão
já faz parte do nosso dicionário.
De volta a minha solidão do sábado, pensei nas
minhas portas. Uma das últimas que lidei, foi
a proposta pelo professor da Oficina de
Criação Literária. O exercício consistia em
escrever uma cena de no máximo quinze linhas
explicando-se o ato de abrir a porta da casa
da gente.
Me lembro de não ter medo nenhum em abri-la,
pelo contrário. Só não sabia como.
Algumas amigas sabiam como, mas tinham medo de
abri-la.
E o professor, paciente, impaciente, divertido
por nos enxergar tão bem, apenas repetia:
- Abra logo esta porta!