A velha
senhora
Da
minha janela no oitavo andar avisto na avenida
a velha senhora. Ela parece ter mais tempo
vivendo ali do que eu de anos. Mas, apenas há
pouco tempo presto atenção nela. Também,
aquela avenida não era um bom local de
passagem. De uns anos para cá é. É, porque bem
próximo foi construído um grande Shopping
Center. Com isso melhorias aconteceram. Houve
época em que as enchentes ali eram de grandes
proporções. Elas ainda acontecem, mas com
menos freqüência e intensidade.
E é lá no meio desta avenida, com um shopping,
com menos enchente que mora a velha senhora
avistada da minha janela.
Uma Tipuana.
Tipuana é dessas árvores fortes, que agüentam
bem as mudanças e os humores do tempo. E
aquela não negou sua raça. Está lá, a despeito
de tudo.Firme, forte. Com um tronco largo,
como anca de mulheres mais velhas, que
procriaram e criaram suas famílias. A copa
imensa e sua florada amarela, previsível todo
outubro /novembro faz dela uma figura atenta.
A rua mudou, a paisagem também. Depois do
sucesso do Shopping foram construidos uns
apartamentos populares. Verdadeiros cenários
frente à longa favela que se desenrola por
trás. Dona Clotilde que mora no andar abaixo
do meu e que também namora a Tipuana acredita
que árvores têm vida.
- Elas tem vida sim. Pode acreditar! Não essa
vida vegetal. Mas vida, mesmo, que plantada em
seus vasos, suas terras, olha o mundo dos
humanos.
Ela acredita tanto que até fala com elas e
coloca música para ouvirem.
O que sei é que essa Tipuana jovem amadureceu.
Viu a favela se formar. Na rua, então larga e
sem asfalto, ela ficava bem no meio.
Observadora solitária! Jogava suas flores
sobre os cabelos de quem passasse. Balançava
seus braços galhados ao vento. Criava paisagem
pra um quadro ou um poema permitindo passagem
de raios de sol entre suas folhas. Nada.
Ninguém lhe dava atenção. Nem ao menos um
coração trespassado por uma flecha foi parar
ali, em seu tronco largo.
- Ah que desinteresse!
Mas, quem sabe, foi melhor assim. Poderia ter
virado uma mesa, uma porta...
Quando construíram os prédios, foi que
marcaram o meio da rua. E assim ela ficou
centrada em uma ilha, protegida por sarjetas e
guias. Mostrou-se em toda sua exuberância. E
os moradores pressionados pelas crianças se
renderam à já velha senhora.
Da minha janela avisto toda movimentação em
torno dela.
- Pai, coloca o balanço mais alto. E ela,
orgulhosa, segura alegremente a criançada que
se balança em seus galhos. Galhos altos,
fortes, que nunca antes ninaram alguém. Se
oferece às brincadeiras.
- Paulo, num vale esconder nos galhos de cima.
- Valia sim, quem manda você não olhar direito.
Uma menina agora inclina o rosto protegido
pelos braços em seu tronco e conta...
- Oh, só vale olhar depois que contar até dez.
- Um, dois, três...dez. Lá vou eu.
Sai correndo à procura dos esconderijos.
Enquanto isso a velha senhora ajeita novamente
sua copa, e espera pela volta das crianças.
No início deste ano um incêndio destruiu parte
da favela atrás dos prédios cenários. Ela
serviu de abrigo. As pessoas penduravam seus
poucos pertences. Amarravam seus cães.
Deixavam as crianças sob ela. Naquele dia tudo
foi desolação. Tristeza de fazer chorar homens
e árvores.
Desde então, reparo nessa tipuana senhora.
Na florada deste ano, ela esteve imbatível,
nenhuma árvore moça se parece com ela. Dona
Clotilde comentou:
- Veja o tapete de flor que ela consegue
produzir, pega os dois lados daquela grande
avenida.
Ontem passei por lá. Ela sorria, transformada
num enorme varal.
- Lúcia, anda logo. Traz as cobertas.
Uma menina pequena vem atravessando a rua com
uma bacia na cabeça.
Do seu tronco a uma placa de transito, uma
corda improvisada já secava ao vento uma
grande quantidade de fraldas...
A velha senhora satisfeita parecia ter netos.
Ela que nem filhos teve.