A história
do chapéu
Quando nasci meu pai já era velho.
Independente do fator idade recordo-me dele
apenas como um homem velho que usava um chapéu
marrom. E com o chapéu marrom ajustado à
cabeça lá ia ele enquanto pode até o centro da
cidade. A pé. Desculpas mil. Um tabelião que
precisava consultar, o amigo que ia encontrar,
uma compra que alguém pediu pra ele fazer.
Oito, dez quilômetros de ida e por vezes de
volta também não incomodavam. Pelo centro da
cidade uma rodada nos botecos, uma pinga outra
e durante muito tempo voltou bem e sóbrio pra
casa.
Também era dele a facilidade de fazer qualquer
semente brotar. Em pouca terra, mas com todo
cuidado, pimentões, uvas, jilós, berinjelas,
quiabos. Uma goiabeira, uma amoreira...qualquer
coisa brotava, crescia, criava. Quando uma de
minhas irmãs comprou uma chácara, ele mandou
tanta latinha com pequenos brotos despontando
que acabou virando piada:
- Pai, dá pra mandar também o japonês pra me
ajudar?
Não gostava muito da brincadeira mas dava um
pequeno sorriso e pra próxima semana mais
algumas latinhas com novidades.
Um homem pequeno, magrelo, saudoso da terra
que deixou pequeno, da família que se
desintegrou cedo. Então criou a dele.
Mulher,cinco filhas e um filho. Casa
tumultuada de gentes de necessidades de ditos.
Então, chapéu na cabeça ele se ia, pra rua.
Olhava as praças, identificava as plantas e
andava e andava e andava. Nos últimos anos
parou. Doente, acamado, impossibilitado. Mas o
chapéu, sempre à mão. Quem sabe, ele me dizia,
ainda melhoro. Eu concordava. Minha irmã se
enraivecia.
- Onde se viu ficar pensando em sair. Mal
consegue respirar. Assim vai dar é mais
trabalho.Ele não desistia, olhava o jornal,
queria notícias da rua. Quando agüentava vinha
até a janela, dava ordens a respeito de como
proceder com tal e tal planta. Cuidados com as
formigas, tempo de poda, excesso ou falta de
água. Discutia política, falava mal do Brizola,
gostava do Jânio. Contava causos, extensos. Eu
só não os conhecia de cor porque muitas vezes
apenas escutava e concordava com gestos tão
ambíguos que ninguém saberia dizer se sim ou
não. Escutava, como quem escuta o tempo. Mas
um dia seu tempo passou. Fiquei com o chapéu.
Que nunca mais viu rua. Guardado no armário.
Vez ou outra na hora da faxina, deixava as
prateleiras pra ficar em minhas mãos, na minha
cabeça, na cabeça de minha filha. Lembranças
dele. Das suas conversas. Imagino o que diria
da situação política atual. Sua espanhola
braveza.
Aventurei-me com o chapéu na cabeça. Mas nossa
única parecença era a teimosia, que tenho, e
que tem o chapéu, tantos anos passados e ..
inteiro.
No último domingo alguém em casa achou que o
chapéu cheirava a pó e colocou na janela da
lavanderia. Oitavo andar. Realmente não
conhece a casa, não conhece os ventos. Quando
cheguei já tinha acontecido. O vento levou o
chapéu pra longe, pro telhado vizinho.
Impossível de alcançar. Durante dois dias,
esperei que o vento novamente fizesse seu
trabalho e o jogasse em algum quintal. Andei
pela vizinhança. Avisei. Pedi. Que me
trouxessem de volta o chapéu que ainda não
tinha caído. Deixei endereço, nome e descrição.
Um tal chapéu marrom que foi de meu pai e que
saiu do armário pra janela e voou. Então fiz
vigília enquanto pude. Uma noite choveu, na
manhã seguinte nada mais restava daquela minha
lembrança. Nenhum vizinho, nada, ninguém. Como
única possibilidade uma nesga de terreno em um
alto barranco impossível de se chegar, cheio
de mato. Local que meu desejo considerou
sempre improvável. Olhei o terreno por cima,
lá da minha janela. Sem nenhum acesso.Tenho
montado vigília novamente, se começar a nascer
frutas e legumes, saberei que ele se libertou
do meu armário, voltou pra rua e pros seus
gostares e meu velho pai com seu chapéu também
libertou-se de mim.
maria izabel