A arte
de ficar sozinha
Quando deixo minha filha no metrô algumas
estrelas ainda se estampam no escuro do céu.
Ótimo! Assim meu pijama passa despercebido.
De volta pra casa, um pouco mais desperta,
coloco roupas apropriadas pra caminhadas e
mantenho a mesa posta pro café.Então saio. E
entre amigas, por uma hora, tento:
- Me manter em forma - seguir orientação
médica - aproveitar a beleza do parque e
colocar os assuntos em dia.
Retornando, o dia começa. Após uma rápida
organizada na casa que inclui supermercado e
contas a pagar, preparo o almoço e – vou
trabalhar.
Raramente fico só.
Como gosto de solidão, e não quero magoar
ninguém - aprendi a me desligar. Independente
de pessoas, conversas ou TV ligada - leio,
presto atenção em plantas, sons e gentes.
Quem sabe renasço algum dia como monja
Tibetana.
Graças a Deus não sou única. Algumas amigas
segredaram que passam roupa e também o que as
atormenta. Brigam com os maridos, divorciam-se,
partem em aventuras incríveis.Escrevem poemas
que rapidamente rabiscam em qualquer lugar
para não serem esquecidos. E quando a roupa
alisada se refugia nas gavetas o calor aos
poucos se esvai
Outras cozinham. Entre diferentes sabores,
esquecidas na cozinha, transfiguram-se. Então
pedem demissão, cortam os cabelos, fazem
tatuagens. Alquimia terminada, pelo ralo da
pia escorrem sobras... e tudo volta a se
empilhar - nas mesmas prateleiras.
Mas, o que me causou estranheza foi um final
de semana em que todos saíram.Tão normal ficar
sozinha acompanhada que quando fechei a porta
o silêncio da casa me alcançou. Na verdade,
assustou. Resistente, apelei ao telefone.
Não encontrei ninguém. Nem irmãs, nem amigas,
nem nada.
Todos os meus estavam, naquele período, longe
de mim.
Que fazer, aonde ir?
– Ah, não sei, mas não posso é continuar
assim.
- Claro – direto à geladeira! Sanduíches sofá
e filme.
Mas qual. Nenhum filme prestava, não tinha
fome.
Leitura? O silêncio me dispersava
Oras! Deixei-me ficar no sofá, enrolada na
coberta. Quieta! Então os barulhos da casa
silenciosamente se apresentaram. A porta do
quarto rangeu. Velhas maçanetas têm som de
fantasmas.
O assoalho vez por outra estalava. Madeira
verde, já me disseram. Árvores colhidas antes
do tempo? Qual o tempo delas? E os fantasmas,
onde vivem? Sempre soube que eles não existem,
mas se os sonhos existem, e se gosto de
imaginá-los...
Agora outros sons permeavam meu silêncio.
Entre fantasmas e madeira verde passavam
carros. Buzinas. Cantorias em algum karaokê.
Sirenes. A casa se povoava. Risadas, choros,
tragédias, suspiros e libido. Os passos do
vizinho no andar de cima ajudava na sinfonia.
Teria ido, ou como eu, apenas ficado?
Sem pressa, entre sons, fui me desligando.
Logo sentei ao meu lado, briguei e fiz as
pazes -comigo e com outros. Assim, esquecida
de tudo organizei pensamentos como quem
organiza um armário.
E garanto - arrumar um armário pode ser tarefa
de um dia ou de uma vida inteira.
Com que então fui gostando das novas
companhias. Ao adormecer escutei numa voz
desafinada uma antiga canção de amor.
Pra quem a voz cantava?