A arte de
fazer pães
Tudo começou na cozinha. Dei uma geral nos
armários, tirei todo o excesso. Louça,
talheres, enfeites. Tudo.
Sem olhar, enfiava em sacos pretos. Não
haveria volta. Achei ótimo. Algumas
prateleiras completamente vazias.
Nesse mesmo dia uma amiga mandou-me uma
receita de pão. Explica pra esperar o tempo
certo de levedar o fermento e deixar espaço
suficiente pra que ele cresça. Foi então que
decidi mergulhar em meu quarto.
O que tem prateleiras, pão e quarto em comum?
Tudo e nada.
Mas, encostei a porta e me atirei na cama.
Cama grande de casal. Macia o suficiente pra
embalar sonhos e choros. Rolo contra a colcha
que mandei fazer escolhendo tecido, cor e
modelo. Derrubo travesseiros, jogo sapatos no
chão. O quarto de nós agora se impregna de mim.
Cheira a pão, perfume, leite.
Quanta coisa! Olho com carinho e ternura.
Sou capaz de viver sem elas. Mas sei que estão
lá porque assim o quis.
Livros. Alguns empoeirados. Outros gastos
pelos dedos e olhar.
O cristal pendurado frente à janela grande de
vidro me colore paredes. Pequenos fragmentos
da luz do sol.
A tv que substitui o papo e o desejo.
Só! Crio espaços.
Tiro peças guardadas para momentos especiais
que nunca chegaram. Outras que já tiveram seus
momentos. Coisas que um dia achei bom e
bonito.
Bijuterias fugazes.
Sapatos que não me levaram onde queria. Pés
calçados não se cumprem.
Alguns livros ganhados, comprados e não lidos.
Tudo no saco preto.
Ele chega e se surpreende:
- Vamos nos mudar? Sorri.
- Já nos mudamos! Séria.
Ele olha peças ainda espalhadas na cadeira, no
chão na cama.
- Gostava de ver você com esse vestido. Lembra?
Sorrio. Ele fica sério.
- O que vai fazer com isso tudo?
- Pensei em fazer pães.
Ele me abraça. A roupa espalhada se abraça em
nós. Rola conosco pelo chão do quarto.
Enquanto saboreamos o pão, mas que palavras
sentimos:
- A casa enfarinhada e perfumada.
- O novo aconchego dos espaços.
Os sentimentos que ficarem têm de crescer. Vou
desentulhar gavetas. Aproveitar o calor pra
ver a massa levedar. Aproveitar a forma.
Que a consistência seja boa. Quando o perfume
se espalhar, que invada casa, cama, nossa vida.
Neste meu espaço de tempo, o que importa é
muito pouca coisa. As coisas ficarão pra quem
ainda delas precisa. Prefiro levedar o coração
Eu nos quero mais
maria izabel