Você
tem fome de que?
Enquanto terminava a louça do jantar Sandra
olhava o pavê esquecido sobre a mesa e
pensava em Valéria, sua irmã, alguns anos
mais nova do que ela. Realmente estava
ficando cada dia mais gorda. Mas fora os
dias em que vinha jantar em sua casa, como
esta noite, raramente se lembrava de vê-la
comer gulosamente. Também nunca a viu mais
magra. Fosse como fosse, Sandra se apressou,
o marido e os filhos já tinham ido dormir
e Valéria já devia ter chegado a sua casa,
que não ficava muito distante dali. E o pavê
continuava, quase inteiro sobre a mesa.
Nada! Nem ao menos uma palavra poderia ser
dita sobre a amizade daquelas irmãs.
É verdade que muito pouca gente ao vê-las
juntas imaginaria um laço familiar. Porque o
carinho e ternura entre elas e a grande
diferença física lembra mais amizades
cultivadas
na infância, o que em verdade também era o
caso delas.
De fato desde pequenas eram amigas.
Sempre muito esguia Sandra, é a bela. Pois
as roupas lhe caem bem e ela sabe como
usá-las. Até com certa displicência. Por
onde passa os olhares a seguem. É claro,
além
de tudo tem marido, filhos, uma boa casa e
emprego. Não parece precisar se esforçar
para nada, à vida é suave. Com cabelos
escuros que lhe descem pelas costas, pele
clara e
uma mansidão no olhar que encanta ilumina-se
ainda mais na presença de Valéria. A fera?
Não isso não poderia ser dito de Valéria,
que gorda de pés pequenos e arredondados,
caminha com alguma dificuldade para
acompanhar a ligeireza da irmã. E a observa
com
muito carinho.
- E se deixasse os meus cabelos também
crescerem? Somos irmãs, o meu deve ser tão
lindo quanto os dela - pensa Valéria, mas
logo lembra do calor intenso que sente no
rosto,
no suor que os cabelos mesmo curtos provocam.
Não bastaria mudar apenas o cabelo
tem suas roupas também, pensa desanimada que
mais lembram uma tenda do que um
vestido.
Mesmo assim, caminha interessada e até
parece tranqüila ao lado da beleza de
Sandra,
como se não sentisse vez por outra
sentimentos de raiva ou inveja. Quase um
determinismo: - cada uma tem o que lhe é
devido.
Tão diferentes e tão amantes.
Como sempre Sandra insistiu muito para que
ela fosse jantar em sua casa e como sempre
também Valéria sente que o ciúme existe sim,
mas do marido da irmã, desta amizade tão
intensa entre elas. Afinal ser deixado de
lado por uma mulher, irmã está certo, mas
desagradável, segundo ele, ainda por cima
comilona e que lhe rouba por falta de um
marido ou filhos parte da atenção de sua
mulher. Não que Valéria impusesse sua
presença, pelo contrário, evitava ao máximo
só aceitando depois de Sandra insistir
muito. Como irmã mais velha, ela talvez se
sentisse não em obrigação, mas no desejo de
manter esse único vínculo de família que lhe
restava. Não procurava as amigas, não tinha
com elas grandes interesses, preferia a
irmã. Quanto aos filhos já estavam crescidos
e o
casamento não lhe importava muito. De
qualquer modo sua eterna esbelteza mesmo
depois dos filhos mantinha aquele marido
orgulhoso e cheio de cuidados para não
aborrecer sua bela mulher.
- Valéria, tem certeza de que não quer mais
um pouquinho?
E antes mesmo da resposta, Sandra tomou do
prato da irmã e a serviu sob seu olhar
constrangido que olhava em torno como se
desculpando pela fome aparentemente tão
grande. Enquanto que, na mesa finamente
arranjada, tanto o cunhado como os sobrinhos
não escondiam um olhar de reprovação.
- Coma Valéria, a gente não liga para isso
não é mesmo? E assim dizendo enchia o prato
fazia a irmã repetir o doce. Talvez Valéria
não ligasse ou assim acreditasse toda gente.
Sempre foi gordinha, gorducha. Bebê,
criança, adolescente, garota, mulher. Gorda!
Diferente de Sandra que pouco tocava na
comida, como se sentisse repulsa e que
também
por conta disso lhe valeu privilégios na
infância.
- O pastel é pra Sandra, está tão magrinha.
Ela precisa comer.
Mas Sandra não comia, mordiscava e a sobra
ficava com Valéria. Que nem mastigava
engolia. Como engolia todas as outras
sobras. Não eram surrupiadas, mas ainda
assim...
sobras.
Não se pode dizer que Valéria não tenha
tentado, fez todas as dietas e regimes, mas
ao
primeiro sinal de desanimo era a irmã que a
acolhia, facilitava. O fato de ser gorda a
tornou tímida e ainda que seja uma pessoa
muito querida por todos nunca arrumou
alguém. Então se acomodou.
Mas anda preocupada, Sandra está cada vez
mais magra e cada vez mais nervosa.
- O que será que a Sandra tem?
Sozinha em sua cozinha Sandra continua a
limpeza. Raivosamente. Sobre a mesa apenas
a travessa do pavê. Ainda cheia da sobremesa
que ela não conseguiu fazer com que
comessem toda. Que insistiu muito para
Valéria levar. E ela não levou. Quem não
conhece
não sabe Valéria não gosta de doces.
Da travessa o pavê olha Sandra, hipnotiza.
Enraivecida ela toma da travessa, senta-se
no
canto entre o fogão e a pia e inicialmente
com uma colher de café come pequenos
bocados do doce, até que deixando-a de lado
começa a comer com as mãos e come até a
travessa ficar vazia.
Chorando, corre ao banheiro que fica perto
da sala, longe dos quartos, fecha a porta e
como faz sempre, desde a adolescência vomita
tudo o que comeu.