O caminho
de casa
Quando Elza acordou naquela madrugada sentia-se
completamente desperta.
Incrivelmente lúcida. Então se sentou na
cama e aos poucos conseguiu divisar que do
outro lado do quarto, acomodada na poltrona,
a mulher dormia.
Ainda bem pensou, não queria e nem precisava
de ajuda. Sendo assim, se ajeitou
confortavelmente nos travesseiros e ali
ficou, durante algum tempo acostumando-se à
penumbra. Naquele momento, fosse por estar
desperta, fosse por que fosse conseguia
perceber o quarto em sua dimensão normal.
Diferente dos outros dias onde se sentia
pequena, minúscula dentro daquelas paredes
que pareciam ter se alargado. É certo que
chegou a cogitar se teria diminuído de
tamanho. Nossa, será que tinha comido bolo?
Bolo?Que estória era aquela? Apenas se
lembrava de ser pequena e de ter lido aquele
livro
várias vezes, até que um dia o esqueceu na
escola e nunca mais encontrou.
Enfim as paredes se mostravam em bom tamanho,
assim como tudo que um dia ela
colocou lá dentro, até mesmo a cômoda antiga
que pertenceu a sua mãe. Sim, de tudo o
que ali estava apenas à mulher, na poltrona
do canto não tinha sido escolha sua.
Quem era ela? Só um nome, lhe ocorria.
Clara. Mas não era tão clara não. Na verdade,
Elza pouco entendia do muito que ela lhe
dizia, portanto acabava se fazendo de lerda
e
ela se calava com expressão cansada.
Quem era ela?
Não importa pensou! Lá da rua o barulho pela
primeira vez a atingia e com facilidade,
levantou-se. Sem preocupações procurou a
janela, onde se deteve no tecido da cortina.
Um pouco roto constatou, mas delicado e
transparente como no dia em que comprou.
Examinando atentamente encontrou aqui e ali
o fio esgarçado. Quanto tempo havia se
passado, em suas lembranças tinha sido ontem
quando em companhia da filha foi
escolher tecidos novos para enfeitar as
janelas.
Ontem? Não pode ter sido, e esses veios que
se rasgam ao toque dos dedos?
- Mãe lhe dizia a filha, você é sempre tão
exagerada, as cortinas lá de casa estão
ótimas,
pra que trocar?
A mulher que respondia como mãe ela via
agora, jovem e disposta, tão diferente
daquela
pessoa imóvel em sua cama.
Porém não se demorou nestas conjecturas, o
barulho na rua era de chuva e ela gostava
disso. Então com total conhecimento dos
espaços, empurrou sem dificuldade um dos
lados da veneziana, que se abriu
completamente fazendo com que a água lhe
chegasse ao
rosto e escorresse até os lábios. Também o
cheiro da terra úmida do jardim subiu e
ousou entre as grades da janela.
Neste momento, a mulher adormecida na
poltrona moveu-se. Elza parou por instantes
observando-a, mas ela apenas acomodou-se
melhor. Até onde sabia de Clara ela não era
jovem, tinha rosto gorducho e lábios grandes.
Sim ela bem sabia da boca daquela mulher.
Afinal tinha o hábito de falar muito perto
do seu rosto na tentativa de ser ouvida. E
por
conta disso Elza reconhecia todos os seus
meandros, lábios ressecados com a curva
virada para baixo como se estivesse sempre
agoniada. Mas as palavras eram calmas e
tranqüilas. Até carinhosas. Sem dificuldades
passou pelos pés de Clara que no sono se
estenderam bem à frente e foi para o
banheiro. Na saída do quarto e antes dos
armários
da roupa lá estava ele.
Cuidadosamente abriu
a porta, entrou e postou-se frente aos
espelhos que tomavam toda a parede do lado
esquerdo. Sem abaixar o rosto abriu a
torneira e deixou que a água escorresse
farta por entre seus dedos. Quase não
conseguia
ver seu reflexo, a única luz era a que vinha
da rua por certo escura pela madrugada. Com
calma buscou a escova e passou pelos cabelos
ralos e curtos. Então fixando bem os olhos
percebeu divertida que a imagem refletida
escovava um cabelo longo e sedoso que
vagamente lhe lembrava alguém. Mas não se
entristeceu, esta noite era certamente um
presente por tantos anos vividos. Oitenta ao
todo?
Como nunca se sentiu em paz, sem pressas, e
sem nenhum medo. Quem sabe de quantas
imagens são feitos os nossos anos. Enquanto
a água escorria, ela viu através do espelho
um roupão dependurado e sentiu vontade de se
rever nos armários. Assim abandonou o
banheiro e com passos ágeis alcançou-lhe as
portas que ficavam a um canto do quarto.
Naquela noite tudo parecia simples e
promissor, as portas de correr facilitavam
seus
movimentos e ela aproveitou para olhar,
apalpar, sentir, cheirar. Felizmente nada
lhe
chamou atenção, as roupas talvez fossem
boas, bonitas, mas não mais a vestiam, então
puxou um dos muitos xales, e envolvida nele
procurou a porta que dava para o corredor.
Se ainda lhe restava uma preocupação era com
o caminho de sua casa. E agora sabia
com segurança, foi por isto que acordou
nesta madrugada. Quem conheceu Elza sabia de
sua mania, sempre manter uma luz acessa
próxima à porta de entrada, para que os
moradores daquela casa para lá voltassem.
Enquanto os filhos eram jovens, e mesmo
antes de tê-los. Fosse porque fosse era sua
maneira de transmitir segurança. Sim, era
sua maneira de acreditar que uma vez em casa
nada, nenhum mal poderia atingi-los.
Nunca descuidou, o caminho de sua casa
estava sempre sinalizado. Então, segura um
pouco por estas lembranças percorreu os
corredores, admirando as cores, os quadros,
as
fotos. Mas agora começava a se sentir
cansada e por causa disso parou algumas
vezes em
descanso, encostou-se nas paredes, deslizou
por elas com as costas apoiadas.
Ainda no corredor podia ver as portas
fechadas dos outros dois quartos. Não
precisava
abrir para saber o que tinha lá dentro,
conhecia sua casa de cor, de cor mesmo, com
todo o seu coração. Afinal, ela tinha estado
presente em cada pedaço dela. Nem sempre
entendeu ou foi bem entendida, nem sempre
amou ou foi amada, mas tinha estado
presente sempre, acertando ou errando,
acabando em sorrisos ou em lágrimas, não se
importava agora.
Mas esta noite precisava abrir as portas,
todas elas e embora cansada ainda o fez, e
do
batente de cada quarto espiou, procurando
sobras das sombras. Durante alguns minutos
se alegrou, a sua casa estava em casa, e
todos de um jeito ou de outro lá estavam
também.
Sem se voltar continuou o caminho, orientada
pela luz guia aquela que trouxe sempre,
todos de volta, noite após noite. Então
antes de ir ao encontro dela passou pela
cozinha,
o cheiro de bife acebolado não combinava com
o fogão impecavelmente limpo e
fechado, nem com as migalhas do bolo de
chocolate espalhadas pela mesa, mas onde
estavam os bolos e quem os tinha comido? Com
um pouco mais de atenção chegou-se à
mesa e as migalhas não estavam mais lá. Quem
sabe conseguisse ver da janela que ficava
próxima da pia, as laranjeiras que plantou
no quintal. Porém não lhe sobrava mais
nenhum tempo, e voltando-se procurou pela
sala, onde na porta da frente sobre a
mesinha do hall entre retratos festivos de
toda a família o pequeno abajur cumpria sua
obrigação, a de iluminar a porta da frente,
a entrada. Agora o cansaço era imenso, ela
mal conseguia se movimentar. Mesmo assim
desligou o abajur e no escuro passou a mão
levemente em todas as suas lembranças, só
então, rapidamente, sem equívocos voltou
para o quarto.
Quanto Clara acordou, um pouco depois do
breve cochilo, teve a sensação de que alguém
tropeçou em seus pés, tanto que os recolheu
imediatamente. Mas não, o quarto estava
quieto, levantou-se ainda espreguiçando e
foi dar uma espiada em Elza. Lá estava ela,
dormindo entre os travesseiros, na mesma
posição em que a deixou antes de se sentar
em
sua poltrona e adormecer. Clara chegou-se
perto da cama. Elza parecia dormir, mas
estava rígida. Em vão tentou despertá-la e
percebeu que não conseguiria mais. Então
sentindo um pequeno estremecimento voltou-se
e viu. Havia esquecido a janela do quarto
aberta?