No fundo
da mala
Quando Eulália escutou a amiga na secretária
eletrônica , precisou conter o impulso de
desligar.
Evidentemente contrariada, resmungou
baixinho:
- Credo, esse pessoal não desiste!
Por outro lado a voz que se ouvia tinha um
tom divertido e suplicante...
-... Eulália, estamos dependendo de você.
Ontem, falei com as outras e elas disseram
que, ou vamos todas, ou nada feito. Anda
Eulália, liga pra gente. Vamos conversar
sobre
isso...
Impaciente a mulher apagou o recado. Durante
toda a semana tinha evitado essa
conversa. Graças a deus inventaram o bina.
Se o número fosse delas, não atendia e
pronto. Quem sabe desistiriam.
Assim pensando voltou ao trabalho cuidadoso
de reorganizar o armário de roupas. Ainda
bem que já havia separado blusas e camisas
por cores e tamanho das mangas. Agora
bastava passar um pano úmido no interior do
roupeiro, secar e colocar os cabides que
certamente ficariam virados todos para o
lado direito. De qualquer modo tinha serviço
para aquela manhã de sábado, pois ainda não
tinha selecionado as saias longas e curtas e
a gaveta com as camisetas precisava de
atenção, afinal uma ou outra cor não tinha
voltado ao lugar correto. E a culpada disso
tudo era Dona Maria que resolveu guardar
suas roupas mesmo sabendo que ela não
gostava que ninguém tocasse em suas gavetas.
Fosse como fosse, até a hora do almoço, tudo
estaria nos conformes. E o degrade nas
gavetas, restabelecido.
Completamente entretida Eulália quase gritou
quando ouviu a campainha:
- Nossa, será que não escutei o interfone?
Ah não! Isso é coisa do síndico, mas se for
pra
falar de reunião, estou fora. É sempre a
mesma coisa.
Mas, não era o síndico. Em frente à porta as
amigas que ela tinha evitado durante toda a
semana; Cristina, Elisa e Cidinha.
- Surpresa! Gritaram as três alegremente
mostrando uma cesta de café da manhã. Ainda
bem que te pegamos em casa.
Embora despachadas nenhuma delas se mostrou
invasiva e permaneceram paradas à
porta esperando que a outra se refizesse do
susto e quem sabe convidasse a entrar.
- Nossa, retrucou Eulália sem conseguir se
conter. O porteiro não estava lá embaixo?
- Claro que sim mas dissemos, que foi seu
aniversário e como tínhamos esquecido
queríamos fazer uma surpresa.
- Ah, e ele deixou vocês entrarem?
- E porque não deixaria, nos conhece há
tantos anos...Esqueceu que eu também morei
aqui respondeu Elisa.
Eulália ainda pensou em continuar na porta,
mas o silêncio que se seguiu pedia uma
atitude e ainda que cheia de manias gostava
destas únicas amigas que sobreviveram a
elas.
- Entrem, vamos tomar este café então.
- Ai que ótimo, estava querendo mesmo um
cafezinho, respondeu Cristina, já se
sentando.
Se os modos da dona da casa eram secos, os
das visitantes eram alegres e barulhentos.
Em poucos instantes já tinham aberto a cesta
e espalhados os pertences sobre a mesa.
Enquanto o café passava Cidinha abriu o
jogo:
- Eulália, vamos falar sem rodeios? A semana
toda tentamos falar com você, e nada.
Então viemos aqui porque o rapaz da agência
de viagem garantiu a reserva até segunda
pela manhã e depois de muita conversa nós
resolvemos o seguinte. Se você não for,
também não vamos.
O silêncio tomou conta da sala por alguns
instantes.
Eulália se dirigiu a cozinha com passos
lentos, sem pressa. E apenas quando colocou
o
bule sobre a mesa voltou ao assunto:
- Olha, porque isso de não ir sem mim?
Ultimamente tenho receio de avião e além do
mais não gosto de sair de casa. Sendo assim,
aproveitem, quando voltarem, prometo que
vou estar no aeroporto esperando. Está bem
assim?
- Sim, se é sua decisão retrucou Cristina,
claro que está. E pegando do celular começou
a
discar.
Como quem não quer nada Elisa comentou
baixinho, mas de forma que todas escutassem:
- Como foi ela quem tratou tudo lá na
agência, ela que vai ter de fazer o
cancelamento...
- Cancelamento ?
- Ora Eulália, nós tínhamos falado. Ou vamos
todas, ou ninguém. Não foi o combinado?
- Gente espere um pouco, Cristina desligue o
telefone... Olha vocês estão forçando, eu
não quero ir, vão vocês, não nasceram
grudadas em mim.
- Claro que não, mas você disse que iria
viajar conosco. Faz mais de dez anos que não
saímos apenas nós quatro. Oxa Eulália, nós
temos marido, filhos pra driblar. Você não
tem de prestar contas a ninguém. A firma é
tua, sai de férias quando quer. Nós não...
Foi
um malabarismo pra combinar as férias de
todas e agora dá pra trás. Qual o problema?
Durante algum tempo o bate boca foi
acalorado até que finalmente e após uma
montanha
de nãos as amigas mobilizadas obtiveram um
sim. Pequeno e tão baixo que só foi
compreendido porque estava incorporado ao
inconsciente coletivo de todas elas.
Então apaziguadas sentaram-se para brindar
com café e durante todo o tempo o clima foi
de confraternização. Apenas Eulália se
mantinha calada.
Sim, ela havia concordado, nada mais lhe
restava fazer, mas daí a estar satisfeita, a
distância era imensa...
Em verdade não havia nada demais, era apenas
e tão somente uma viagem. Sim uma
viagem a Itacaré em Ilhéus. E a proposta
desta cidade tinha partido da própria
Eulália,
que em outra ocasião esteve por lá e se
apaixonou pela cidadezinha calma, tranqüila
com
praias lindas.
Mas agora, neste exato momento só queria que
este bando barulhento fosse embora de
sua casa. Afinal tinha dúzias de cabides
esperando por ela.
Mas a informação fornecida pela Elisa em
seguida ajudou a acalmá-la.
- Ah, parece que fomos contempladas com
quartos individuais, não é isso Cristina?
- Bem, na verdade demoramos tanto que só
conseguimos vaga em uma pousada de
ecoturismo, parece que eles tem uma casa com
seis quartos individuais, então, quatro
são nossos.
- Como é isso?
- Pére que vou pegar o panfleto e ler pra
vocês. Mas fiquem tranqüilas, vi as fotos, o
lugar é muito bonito.
- Ah veja só:
“A Ecovillage blá, blá, blá totalmente
integrados a natureza, blá blá blá... um
lugar onde
as pessoas podem experimentar o milagre da
vida... Acomodação:
2 cabanas em frente à praia, com capacidade
para 2 até 4 pessoas cada;
2 chalés com 2 apartamentos cada;
2 chalés com 4 suítes (quarto com banheiro);
É aqui
1 casa com 6 suítes (quarto com banheiro);
- Cristina, isto parece coisa de bicho
grilo.
- Quem mandou demorar tanto, só sobrou esta
pousada, e ainda bem que a gente
conseguiu, mais um dia, e nem passear com os
bichos grilos a gente iria poder.
- Tá certo disse Elisa, significa que a
gente vai poder, conversar, rir sem muita
gente por
perto.
- Ah disse Cidinha, eu estava louca pra ter
muita gente por perto.
Reticente. Assim Eulália se manteve. De
qualquer forma no mesmo dia, logo que
terminou
a arrumação, tirou uma mala de tamanho
médio, azul-marinho, colocou-a ao sol,
lavou,
secou e desde então todos os dias separava e
selecionava peças de roupas que
considerava adequada à viagem. Algumas
blusinhas de alças largas e clássicas para
combinar com duas saias longas bem
básicas... Preta e bege.
Eulália é uma mulher jovem, 40 anos. Mas
desde a morte dos pais ainda menina,
tornou-se ensimesmada. Mesmo adulta, o
quadro não mudou. Pelo contrário, acentuou.
O fato de ter sido,ela e o irmão, quatro
anos mais velho, criados pelos avós
maternos,
certamente contribuiu com esse isolamento.
Evidente que eram netos adorados, mas
desde que tudo aconteceu, e até a
adolescência eles conviveram muito mais com
doenças
do que com saúde. É certo também que deles
herdaram um pequeno patrimônio que lhes
permite viver com tranqüilidade, mesmo
assim, há dez anos começaram uma firma de
embalagens plásticas. Enquanto Eulália lida
com os detalhes de moldes e perfeição do que
é feito, Rodrigo o irmão faz as vendas. São
harmoniosos no trabalho e a firma, vai bem,
obrigada.
Mas, a moça, é como se tivesse empestada de
velhice. Sempre vestida sobriamente , o
que não valoriza seus olhos verdes e sua
pele clara. Pelo contrário a roupa parece
fundir-se nela e é como se uma alma
deslizasse pelas ruas. Quem sabe uma alma
penada...Não chama atenção nem quando fala.
Também fala pouco e com muito pouca
gente. Talvez por isso tenha concordado,
estas amigas, é todo seu contato com um
mundo rápido e colorido. Sempre por perto,
sempre felizes. Só ela solitária e triste.
Ainda no dia da viagem, pela manhã, revisou
a mala. Algumas bermudas em tom neutro,
as duas saias longas, 2 sunquinis pretos,
blusinhas de alças largas, calças compridas
de
tecido leve e mais algumas peças. Perfeito!
Não era de seu feitio esquecer-se de nada,
nem das fitas coloridas para distinguir
rapidamente sua bagagem das demais na
esteira do
aeroporto. Só que desta vez Cidinha fez
questão de comprar fitas para todas. E a ela
coube os tons verde e amarelo. Que coisa
mais chamativa, pensou Eulália, de qualquer
forma, quando entregou a mala era assim que
ela se encontrava – bem brasileirinha.
Antes que a esteira engolisse a bagagem
Eulália teve vontade de arrancar aquele
laço.
Não parecia, ele foi feito de qualquer
maneira, sem as suas delicadezas nem de
escolhas
de tom, nem de simetria, uma ponta mais
comprida que outra. Completamente
desleixado. Por alguns instantes ela
acariciou o fecho da bolsa onde trazia
cuidadosamente embrulhadas outras fitas. Em
seda, cores suaves. Que certamente a
distinguiriam das demais. Mas qual,
rapidamente o laço sumiu e sentiu suas
pernas
abraçadas por duas mãozinhas.
- Tia Lala.
A vozinha infantil afastou suas preocupações
e ela se encheu de ternura.
- Oi meu querido, que está fazendo aqui?
Enquanto pegava o menino ao colo virou-se e
deu de cara com o irmão e a cunhada.
- Viemos ter certeza que você vai passear.
- Ah, estavam duvidando?
- Não, mas de qualquer forma viemos
conferir.
Ao grupo, juntaram-se as famílias das outras
mulheres e a conversa se manteve animada.
Quando saíram para tomar um café, Rodrigo,
irmão de Eulália acomodou-se perto dela
no balcão e disse baixo mas firme.
- Olhe, viaje tranqüila, sei que está
preocupada com os novos modelos de
embalagens
plásticas, mas eles disseram que podem
esperar você chegar. Até lá vou segurando as
vendas ok?
- Fico aliviada, esses moldes são caros e
delicados, se não forem bem feitos vamos
perder o cliente. Se não se importa, gosto
de verificar pessoalmente.
- Claro que não, você sabe que sou leigo no
detalhe, meu negócio são as vendas mesmo,
e dizendo isso sorriu e se despediu da irmã.
Logo todos fizeram o mesmo e finalmente as
quatro se dirigiram ao portão de embarque.
- Credo comentou Cristina, achei que esse
povo não ia embora nunca mais. Não vejo a
hora de chegarmos em Ilhéus. Meninas nada de
ficarem chorando toda a noite com
saudades de casa, está bem? Qualquer coisa,
como médica eu recomendo uma boa
terapia, procurar os surfistas, combinado?
Todas riram, afinal, com exceção de Eulália,
o que mais queriam era sair de férias.
- Se eu chorar, disse Elisa, mandem me
internar.
Assim a viagem transcorreu normal, vôo
lotado.Quando finalmente chegaram a Ilhéus,
a
responsável pelos laços, se postou frente às
esteiras e recolheu a bagagem, Elisa um
pouco atrás da multidão, munida de um
carrinho, recebia as que Cidinha puxava
entre
tantas e as empilhava. Pra não ser chamada
de chata Eulália ficou de longe, irritada
por
ver sua mala, que nem parecia sua tão
amassada entre as outras. Mas não tinha
dúvida -
azul-marinho, média e brasileirinha daquele
jeito... O que ela não viu, é que muitas
voltas
depois, outra mala circulou pela esteira,
igualmente azul-marinho, igualmente verde e
amarela, voltas e mais voltas. Bem o caminho
foi longo, o tal hotel, que na verdade nada
mais era que uma pousada de ecoturismo,
ficava a 60 km de Ilhéus. O acesso era feito
pela travessia do Rio de Contas com a balsa
local, e depois a direita um longo caminho
de
terra.
Completamente encantadas com o lugar foram
se deixando envolver pela fala do guia que
a essa altura, ciente de que era senhor da
situação anunciava em voz cantada, seu
discurso mais de uma vez repetido. É claro
que quase nada escutaram.
“A Ecovillage nasceu do sonho de um grupo de
pessoas de viver totalmente integradas à
natureza, blá blá blá... um lugar onde se
pode experimentar o milagre blá,blá,blá. Os
chalés e casas são construídos de maneira
totalmente natural com madeira, adobe, e
cobertura de piaçava. São rústicos, porém,
espaçosos e confortáveis. Usamos energia
solar para eletricidadee contamos também com
um espaçoso restaurante totalmente
voltado para o mar, onde servimos uma
deliciosa comida natural. O ambiente foi
projetado para uma vida em harmonia com os
elementos, sendo um espaço ideal para
workshops, conferências, casamentos
espirituais. Etc...etc...etc... sala de
terapias, salas
em frente ao rio, cinema, biblioteca, sauna
a lenha, tapetes de yoga, almofadas de
meditação.
- Gente, o cara falou em tapetes de yoga?
- Acho que sim, e casamentos espirituais
também. Ô Cristina, você não trouxe a gente
pra um retiro não, né?
O guia continuava... Só que agora tinha toda
atenção possível por parte delas:
- “Há lugares no mundo onde a alma repousa e
o espírito se liberta, lugares onde
esquecemos as preocupações que nos
atormentam e os sonhos voltam a nos
desafiar. Há
lugares onde a paz nos encontra e
serenamente se instala dentro de nós...Há
lugares onde
reinam somente o mar, os coqueiros, as
estrelas e o sol, onde podemos nos retirar
do
mundo, tão cheio de tudo e de nada, para nos
encontrarmos com o que é verdadeiro e
belo, com a simplicidade e o encanto da
natureza virgem. Aqui é um destes lugares
sagrados, onde a magia nos envolve e o
silêncio nos embala. Integrada entre a mata
Atlântica verde esmeralda e o mar azul
celeste, A ecovillage é esquecida pelos
homens e
abençoada pelos deuses. Sejam muito bem
vindos.”
Cristina se defendia:
- Gente tenho certeza, o pacote que comprei
incluía surfistas... Mas sabe de uma coisa,
com esta fala, esta voz , esse bronzeado,
acho que não me importo se meu espírito
ficar
bem liberto.
- Mais? Retrucou Elisa, e todas caíram na
gargalhada. Eulália ainda se mostrava
reticente,
mas a paisagem, aquele cheiro de maresia, o
calor começava a deixá-la um pouco mais à
vontade, rindo com as outras.
Então, já no presumido hotel , tinham ficado
com quatro, dos seis quartos que havia
dentro da casa.
- Gente, que lugar mais lindo.
Cidinha foi a primeira a observar:
- Vocês repararam que a maioria do pessoal
que veio com a gente ta mais pra bicho
grilo? E com um ar um tanto quanto receoso,
correu a dar as ordens sobre as malas...
- É disse Elisa, melhor a gente começar a
ver quem vai fornecer os baseados...
- Nem precisa, retrucou Cristina tenho a
impressão que o fumacê vai ser tão grande
que
vamos fumar por osmose.
Tão distraídas na brincadeira nem notaram
que o atendente da pousada já as aguardava
para entrega das chaves:
- Namastê!
- Sejam muito bem vindas, qualquer coisa que
precisarem é só dizer, as bagagens já
foram levadas orientadas pela Dona Cidinha.
Então, quando Eulália se viu sozinha no
quarto, tirou os sapatos e se acomodou no
meio
da cama e com os olhos fez o reconhecimento
do lugar.
Como anunciado, quarto grande, pé direito
alto. Pintada em tons de verde claro na
parede do lado direito uma longa porta
balcão que certamente servia de passagem
para a
varanda e areia do mar. Naquele momento era
impossível precisar , apenas uma pequena
fresta da janela se deixava entrever pois as
cortinas pesadas com o tal do blecaute se
fechavam sobre ela.
Do outro lado, à esquerda, sobre o aparador
, um arranjo com frutas coloridas, telefone
e encartes do hotel, por baixo dele uma
pequena geladeira e ao lado a porta do
banheiro. Mas nem teve tempo de olhar as
mesinhas laterais cheias do artesanato
regional. Sem desviar, seu olhar se fixava
na mala acomodada sobre uma mesinha.
- Que mala é aquela?
E levantando-se de um salto percorreu o
pequeno espaço que as separava.
Tudo bem, os laços mal feitos e
brasileirinhos iguais, a cor, azul marinho,
mas aquela
não era a sua mala.
- Como aconteceu isso?
Apesar da apreensão , decidiu-se por
verificar antes de soar o alarme. Mas sim,
não havia
dúvidas, parecida, mas não a sua.
Pronto, era o que faltava. Rapidamente
interfonou para a recepção que antes de
qualquer
coisa a irritou:
- A senhora tem certeza que não é a sua
mala?
- ...
- Olhe, esta madrugada soprou o noroeste e
nossa comunicação ficou afetada, acredito
que no começo da tarde esteja restabelecida
e eu comunicarei ao aeroporto.
Sem poder fazer nada, Eulália foi ter com as
amigas.
Cidinha ficou inconformada.
- Putz, logo a sua Eulália? De qualquer
forma vá usando roupa nossa até essa
situação se
resolver.
- Claro, responderam todas. Mas como já
estava na hora do almoço à moça agradeceu e
disse que por enquanto não precisava, uma
chuveirada seria o suficiente.
Mesmo assim após o banho Eulália optou por
vestir a calcinha do avesso.
Final de tarde e nada resolvido, em seu
quarto com a mesma roupa da viagem e agora
descalça, ela aguardava.
Quase hora do jantar e o atendente pela
décima vez lhe garantia que conseguiu avisar
o
aeroporto pelo rádio mas que até ali ninguém
havia reclamado e nada estava sobrando.
- Como assim , pensava enquanto dava voltas
frente àquela maldita mala que ali
permanecia quieta, à espreita. Ninguém
reclamando, nada sobrando?
Ela olhava aquela bagagem sobre a mesinha,já
conhecedora dos detalhes, percebendo
onde a cor azul se encontrava começando a
desbotar.
- Não acredito, o dono não se deu sequer ao
trabalho de colocar um cadeado. Mesmo
assim não tocava nela.
Sobre a cama algumas peças esquecidas de
roupas que as amigas insistiam.
- Eu quero o que é meu. O que me dá raiva é
que tenho certeza, se quem ficou com
minha mala for uma mulher, desleixada como
se vê, aposto que já está por ai usando
minhas coisas.
Só de pensar Eulália se irritou e por conta
disto aquela noite não jantou. Não houve
pedidos, brincadeiras ou explicações que a
fizessem mudar de idéia. Quem sabe o dia
seguinte trouxesse a solução. Só que,
contrariando os prognósticos a manhã acordou
chuvosa. Cinza!
Aquela mala azul, desconhecida,
brasileirinha e sem cadeado pesava dentro do
quarto.
Eulália não conseguia tirar os olhos dela.
Por várias vezes se achegou, mas não a
tocava.
Provavelmente o noroeste iria soprar mais um
dia e ela não se sentia confortável em seus
trajes suados.É certo que durante a noite
colocou a roupa para arejar, e pela primeira
vez dormiu nua. Mas agora sentia o cheiro da
chuva, a brisa fresca e ela completamente
inadequada enrolada na toalha de banho.
O fato é que a mala ali estava.
Possivelmente trancada já que não estava
protegida por
cadeados. Num impulso testou a tampa, a
trava era simples, puxou por elas e com
surpresa constatou:
- Aberta? Não usou nem chave?
Rapidamente tornou a fechar, sentia o rosto
queimar, como se todos tivessem
presenciado seu gesto. E novamente ligou na
recepção. Ninguém havia reclamado ou
devolvido nada.
De volta à mala, sentindo-se com um pouco
mais de direito, tornou a abri-la.
Sem tocar, só olhando, Eulália comprovou sua
tese:
Certamente, uma mulher jovem e bicho grilo,
pois as peças meio que emboladas
sugeriam uma pessoa que não ligava muito
para uma aparência ordeira. Então, aos
poucos, foi se enchendo de coragem e com as
pontas dos dedos começou a levantar um
ou outro item.
- O primeiro foi um xale, feito em linha
preta, com pontos largos, tendo uma ou outra
flor colorida aplicada. Nem de longe
lembrava o seu gosto, mas, num impulso, após
se
vestir e antes de sair do quarto ela
retornou e enrolando-se nele saiu para o
café.
- Ora viva! Até que enfim!
- Nossa que lindo, disse Cristina! Onde
arrumou esse Xale?
Nem bem terminou a frase Cristina
arrependeu-se dela, e tratou de mudar de
assunto.
- Engraçado, pensou, será que ela não
escutou?
Se escutou, não retrucou, sentou-se à mesa e
aparentava uma calma desconhecida por
elas nas últimas horas. Ainda que não
tivessem combinado, todas evitaram fazer
comentários sobre a mala. Enfim ela ali
estava e tão natural que não valia a pena
acordar
fantasmas.
Mas assim que voltou ao quarto a calma
desapareceu, abriu a mala quase num safanão,
raivosa, mas assim que começou a tocar as
peças revestiu-se de extrema delicadeza. E
foi assim, delicada que examinou todo o
conteúdo daquela bagagem. Tanto se entreteve
que quase atrasou o passeio de barco
programado para aquela manhã. Quando se
juntou
ao grupo, as amigas perceberam que alguma
coisa havia acontecido a Eulália. E pela
expressão dela muito longe de ser ruim. Por
certo ainda usava as mesmas roupas da
viagem, só que havia dobrado a barra das
calças umas três vezes e trazia calçado umas
havaianas bordadas de pequenas conchinhas.
Talvez as novas sandálias fossem as
responsáveis pela leveza , pelo andar calmo,
tranqüilo, que não se alterou nem ao ver que
era esperada. E quando se sentou no barco
havia um que, um jeito diferente de colocar
os pés, de movimentá-los, quase uma
sensualidade. Ninguém entretanto pareceu
notar, e
o olhar da moça passava de um rosto a outro
mergulhando depois naquele mar azul.
Certamente o noroeste começava a soprar . Só
que mansamente, a princípio, e em sua
vida.
Assim o passeio transcorreu calmo, Eulália
se sentia observada, constantemente
observada, ou era ela que agora prestava
atenção às pessoas? Instintivamente
levantou-se
e saindo do lado das amigas juntou-se a um
grupo um pouco mais jovem e falante. Em
pouco tempo ela já estava entrosada. Sem dar
mostras de preocupações, provava as
bebidas que passavam entre eles, de mão em
mão.
Quando o barco atracou o convite surgiu:
- Quer vir com a gente?
Eulália olhou em direção das amigas, mas sem
nenhuma pergunta ou explicação, sorriu e
seguiu o grupo que se distanciou dos demais.
E com eles ficou por todo o dia, deitada de
roupa sobre a areia, com a blusa agora
amarrada abaixo dos seios, entrou na água,
molhou-se. O rosto que se refletia na água
era mais jovem ou mais tranqüilo?
Só quando voltou ao seu quarto, a ansiedade
voltou, imensa, poderosa. Sim precisava
rever a mala, saber que outros segredos ela
escondia.
“Claro que uma mala tem segredos se dizia a
moça, afinal ela guarda pedaços dos nossos
dias, dos nossos medos, dos nossos
encontros. E esta particularmente é uma mala
entregue, sem medos, pro meu gosto, é uma
mala debochada.”
Mas fosse como fosse sentia necessidade
daquele objeto, de manuseá-lo, se mostrar
dona, sim, ela a dona.
E com esses ares de proprietária levantou o
primeiro vestido que encontrou.
- Nossa, olha só este vestido. Que decote! E
a estampa, onde alguém usa uma roupa
destas? E os biquínis. Como seria a dona da
mala? Com esta e outras perguntas ali ficou
até que o pessoal começasse a procurá-la
para o jantar.
Ainda a contragosto entrou no banho, mas,
assim que saiu, sentiu-se excitada com uma
idéia e então, enxugou-se e colocou o
vestido. Incrível, servia, virava-se frente
ao
espelho, o decote ia até a cintura, a
estampa em lilás realçava sua pele clara.
Num gesto
premeditado, soltou os cabelos, sempre
atados, e os cachos deslizaram irrequietos
pela
nuca. Ainda na mala Eulália encontrou os
saltos e os brincos. Já o batom escuro
transformou um rosto quase perfeito em uma
nota que destoando fazia o acorde se
tornar belíssimo. E assim ela saiu do
quarto, arrastando nas mãos o xale, o mesmo
usado
na manhã.
No salão de jantar ela se deteve na porta,
as amigas acenaram de longe. Sem responder a
moça procurou um novo grupo e com
desenvoltura se apresentou, sentou-se.
Elisa levantou-se e foi até ela.
- Oi Eulália, está tudo bem?
- Sim Elisa, tudo bem.
- Não quer sentar-se conosco? Falou uma das
moças que compunha a mesa.
- Minhas outras amigas estão naquela mesa,
respondeu apontando as outras que
acenaram.
- Chame todas, vamos aumentar o grupo.
Elisa por um momento se deteve observando os
demais. Ao todo sete pessoas, muito
jovens,mas, antes que tomasse qualquer
atitude Eulália adiantou-se. Com um gesto
chamou as outras que logo vieram.
Assim a conversa se manteve animada embora
Eulália aparentasse uma distancia,
ausência mesmo, conversava e ria
animadamente com todos e com ninguém em
particular.
Seus olhos percorriam o salão, estava à
procura.
Então mais tarde quando a música se tornou
suave e alguns casais resolveram dançar ela
aproveitou a ocasião e saiu da sala. E
quando as amigas retornaram aos quartos a
viram
conversando animadamente com o barman.
- Curiosa Eulália, vocês não acham?
- Estava pensando se ela não andou tomando
alguma coisa.
- Gente, viemos aqui pra relaxar. Ela é a
última pessoa que se envolveria com o que
quer
que seja, vocês conhecem a dona moralidade
não conhecem?
- Eu pensei que conhecia, falou Cidinha.
Eulália, se entreteve em drinks e conversas
com o barman até o começo da madrugada.
Ainda não sentia sono, é como se tivesse
dormido muito e agora tivesse sobra de
descanso. Então se dirigiu à praia e lá
ficou. Amanhecia quando retornou ao quarto e
se
jogou vestida na cama.
Quando acordou a inquietude tinha se
dispersado, tirou da mala todas as coisas e
as
colocou sobre a cama. Então foi
experimentando tudo. No final da tarde a
figura que saiu
do quarto parecia alongada, ou seria aqueles
shorts mais curtos que faziam essa
impressão?
A mulher que caminhava alongada, fosse pelo
shorts ou não, tinha um ar diferente,
evasivo, olhava com interesse as
trivialidades e se detinha em quase todas as
conversas
disponíveis.
Em pouco tempo, as conversas é que a
procuravam. Na verdade ela agora chamava
atenção, um jeito descansado, uma conversa
alegre, uma vontade de provar.
Rapidamente os dias se sucederam, como
acontece quando se está em férias. Embora
distraídas as amigas começavam a se
incomodar com Eulália, que agora não lhes
fazia
companhia. De certa forma a moça antes tão
tímida tornou-se o centro da atenção, ria e
conversava com todos. Até cantava. Não que
elas se importassem, afinal sempre a
incentivaram, mas agora se sentiam deixadas
de lado. Por certo era outra aquela Eulália,
vestida sempre de forma tão casual.
- Casual? Gente veja o biquíni dela.
Sim, pelo caminho da praia, naquele final de
tarde vinha Eulália, como sempre
acompanhada.
- Epa, desta vez muito bem acompanhada,
emendou Cristina. Quem é o cara?
- Nossa que esse eu ainda não tinha visto
por aqui.
- É, o biquíni também não, insistiu Elisa. É
de alguma de vocês?
- Quem me dera ter um biquíni cortininha e
ainda poder usar.
De longe a moça notou as amigas e acenou com
a mão, continuando seu passeio sem se
deter.
Naquela noite enquanto jantavam Eulália
apareceu, vinha sorridente, com um vestido
indiano, longo. Os cabelos presos atrás
realçavam seus traços delicados. Quando se
abaixou para beijar Cidinha a nuca esticada
mostrou a pequena tatuagem de flor.
- É de henna, perguntou Elisa?
- O que?
- A tatuagem Eulália, é Henna?
- Não, claro que não. E sem continuar o
assunto sentou-se e pediu um vinho.
Em verdade todas queriam era detalhes, do
moço, da tatuagem. E ficaram esperando que
ela os esclarecesse.Mas a moça por ali
ficou, algum tempo, serena e sorridente sem
se
importar com as perguntas, alguma respondia,
outra deixava passar, até que a companhia
daquela tarde veio buscá-la. Sem cerimônias
ela simplesmente levantou-se e saiu.
- Assim , disse Cristina, sem nem apresentar
o moço?
- Gente isso deve ser feitiço, e se for,
também quero, resmungou Cidinha que com o
olhar acompanhava o casal que já saia porta
afora.
Durante aqueles dez dias, vez por outra uma
delas ia até a recepção saber sobre a mala
de Eulália. E como sempre a mesma resposta. Nada!
Eulália por sua vez parecia não se lembrar
mais, aliás parecia não se lembrar de muita
coisa, já era o próprio noroeste, modificada
suas paisagens.
Apenas na última noite, Sozinha em seu
quarto, na madrugada antes do retorno, com
delicadezas foi recolocando na forma
encontrada tudo o que pertencia àquela mala.
Nem
tudo havia sido usado. Quais peças, a gente
não vê e carrega. Utilmente, inutilmente,
habilmente, inocentemente? Não sabia dizer,
mas teve a impressão, clara, de que no
fundo daquela mala havia um rosto desenhado.
Só pode ser o efeito da luz do abajur
pensou, mesmo assim, se concentrou, queria
quem sabe se ver. Não, eram duas as
figuras que agora se fundiam. Durante muito
tempo ali esteve, observando, capturando,
perdendo. Então refez os laços e colocou a
mala aberta bem no meio da cama. Não
conseguia dormir, quando amanheceu, já se
encontrava na recepção com a bagagem
apertada nas mãos esperando os demais
hóspedes que iriam para o aeroporto.
Não consentiu que ninguém a separasse dela.
Sua mala. Levou-a consigo dentro do
ônibus, e na hora de entregar as passagens
no balcão, foi com dificuldade que a
entregou. Enquanto aguardavam o embarque,
dirigiram-se ao café. Como em todos
aqueles dias Eulália se sentia bem. O café,
era uma pequena sala cheia de mesinhas mas
elas se acomodaram no balcão.
Um pressentimento, um sentimento fazia com
que ela se detivesse olhando o interior do
café.
E foi então que viu, ao fundo, em uma das
mesas, solitária, uma moça pálida e triste
com
uma saia longa preta e uma blusa de alças
largas que ela poderia jurar já ter usado
algum
dia.
Seus olhares se cruzaram, mas nem uma
nem outra deu mostras de algum
conhecimento.
"Um dia tenho de voltar a Ilhéus, pensou,
mas vou voltar sozinha."
Imediatamente, sem pensar duas vezes se
voltou para as amigas e só então anunciou.
Não
iria voltar. Pelo menos por enquanto não
iria voltar para casa.
- Eulália, começou Elisa.
Mas o olhar firme da outra a fez calar.
Abraçaram-se, e enquanto as três se dirigiam
para
o embarque, Eulália viu, acompanhando suas
amigas Então mais do que nunca teve
certeza, tinha muito que viver, antes de se
sentir plena para retornar então, olhando
para
a saída do aeroporto, com a mala não
trancada na mão, pisou firme e saiu em busca
quem sabe de um pouco de sol.