Entre
sonhos e pesadelos
À medida que as horas passavam Lúcia ia
adquirindo a certeza de que não conseguiria
dormir e, portanto, fazia contas de quanto
tempo faltava para a claridade do dia.
“Isso é ridículo! Onde já se viu uma coisa
destas.”
Fosse ridículo ou não a verdade é que sentia
medo. E o problema é que não era um medo
real, e sim sustentado por imagens, sombras
formadas nas paredes, resultantes da
combinação, movimento do vento na folhagem
do quintal versus frestas da janela do
quarto. Para sentir-se melhor ela ainda
havia deixado uma luz no banheiro acesa e a
porta entreaberta. Sendo assim a claridade
que escapava só fazia aumentar e transformar
em braços desnudos e descarnados qualquer
galho de árvore que se atrevesse a balançar.
E a despeito de não ser real, era real o seu
medo.
“Não vou conseguir dormir e dizendo isso em
voz alta levantou-se da cama decidida a
resolver o problema.”
Só que quando abriu a porta do quarto
deparou-se com o silêncio, a casa grande da
praia, assobradada, cheia de janelas de
vidro e sem cortinas dormia. Então ela se
deixou ficar por ali, pelo corredor, de onde
conseguia visualizar na parte inferior a
sala, e também o mezanino e os quartos. Por
trás de todas as portas havia gente. Sim a
casa estava lotada, mas em seu quarto apenas
ela. Alberto, o marido, ia chegar pela manhã
e o espaço se afigurava imenso, assim como a
cama de casal.
Ainda pensou em descer até a cozinha, tomar
um pouco de água, mas para isso precisaria
acender luzes, pois hoje, ao contrário dos
outros dias em que se sentia segura não
seria capaz de caminhar no escuro.
Sendo assim debruçou sobre a balaustrada e
tentou firmar os olhos para que se
acostumasse com os desenhos que as sombras
projetavam pelos móveis. De tal modo
concentrou-se nisto que logo começou a se
sentir cansada, muito cansada.
“Não posso mais conviver com este medo.
Assim que voltar pra casa vou procurar um
terapeuta.”
Também em outras ocasiões havia pensado
nisso e nunca fez nada. Afinal ele, o medo,
só se tornava terrível à noite e sozinha o
que raramente acontecia.
Primeiro como caçula da família, sempre
dividiu o quarto com alguém, e quando saiu
de casa foi pra se casar. É certo que nestes
dez anos de casada ficou sozinha em outras
ocasiões, porém a filha ainda pequena logo
se aninhava junto a ela e a noite passava.
Ou ainda uma de suas irmãs acabava se
oferecendo para fazer companhia e a pretexto
de bater papo acabavam por dividir a mesma
cama. Raramente esteve sozinha, porém toda
às vezes que isso aconteceu, adormecia pra
ser acordada por sonhos aflitivos que
deixavam nela uma dor quase opressiva.
E, uma vez acordada a sensação era de que o
mau sonho se esgueirava pelos móveis, teto,
paredes.
Acontece que hoje a casa estava cheia, as
irmãs acompanhadas, a filha com amiguinhas.
E ela ali, num mundo assustadoramente real
ao qual não sabia por que tinha acesso.
“Deveria ter combinado para que as crianças
dormissem no meu quarto, bastava espalhar
colchões, e elas bem que gostariam da
novidade. Ou então poderia ser na sala mesmo
e eu teria uma desculpa para me juntar a
elas. Mas que merda porque não pensei
nisso?”
A verdade é que o sol, os risos, as
conversas não deixam que os fantasmas se
atrevam. Sendo assim, em nenhum momento
achou que teria esta companhia. Pelo
contrário, ao se deitar sentia-se tão
cansada que logo pegou no sono. Porém não
durou muito em pouco tempo estava acordada e
a partir de então tentava desviar-se do
medo.
Ainda olhou as portas dos quartos, mas não
havia o que fazer, ou acordava alguém e se
sujeitava a conversas futuras ou aprendia
como achava que deveria, a controlar o
pânico. Infelizmente sua dúvida durou pouco,
pois, ainda parada no corredor,
comportamento vigilante, lembrou-se do
cunhado que havia morrido no ano passado.
Arrepiou-se e instintivamente voltou para o
quarto onde acendeu todas as luzes. Com
gestos e palavras pensadas tentava se
obrigar a raciocinar. Como é mesmo a frase?
“A gente tem de temer os vivos não os
mortos”. Ainda sem certezas sentou-se na
cama, acomodou-se e tentou ler.
Entre um parágrafo e outro teve a idéia:
“- Sim, é claro quem sabe uma reza ajudasse.
Isso, dizem que o Creio em Deus Pai, é
oração poderosa. “Creio em deus Pai todo
poderoso... mas não foi capaz de continuar.
Sentia-se constrangida, diminuída aos olhos
de Deus por estar rezando não pela fé ou
energia e sim por estar assombrada pelos
seus demônios. Entristecida retomou a
leitura.
Já passava das três da manhã. Pelo menos era
o que o rádio relógio indicava e que ela
conferia a cada parágrafo. Não seria capaz
de repetir uma única palavra do que havia
lido e se esforçava em vão pra reler. Mas os
olhos começavam a pesar e a leitura forçada
incomodava.
- Chega! É muito ridículo.
E se eu ficasse viúva, não teria de me
acostumar?
Com força jogou o livro nos pés da cama.
Então pronto, chega! Com gestos fortes
apagou as luzes, puxou o lençol até cobrir a
cabeça, protegeu as costas com o travesseiro
que sobrava e tentou dormir. Ainda assim
continuava escutando o barulho do vento nas
folhas, o caminhar apressado do saruê que
tinha feito ninho no forro da casa. Isto fez
com que sentisse mais raiva e foi então que
entre uma revirada e outra adormeceu pra
mergulhar em outro sonho pesado, onde uma
criança, de olhar mortiço, e blusa azul,
sorria, no canto do quarto de forma
perversa. Bem que tentou desviar o olhar, e
este descuido foi o suficiente para
sentir-se presa pela criança que sentada
sobre seu peito ria de sua dificuldade em
respirar.
- É sonho, é sonho ela tentava inutilmente
articular as palavras. Se eu conseguir
gritar ou me mover sei que acordo. Em vão. O
pesadelo na forma de criança ria muito e
alto. Enquanto pensava, tentava
desesperadamente se safar até que finalmente
emitiu o grito que saiu baixo e rouco e não
alto como ela gostaria.
De qualquer forma acordou e sentada na cama
tentava acalmar seus batimentos. Já eram
três e meia da manhã e em pouco mais de duas
horas o sol entraria pelas frestas do quarto
e ela poderia descansar. Sim tudo era
questão de se agüentar. Novamente acendeu as
luzes.
Agora pensava nos casos de pessoas
enterradas vivas, porque como em seus
pesadelos via e sentia tudo, mas não
conseguia se comunicar. Se eu não voltar uma
hora desta destes pesadelos? Como é mesmo o
nome da doença que pode provocar esta
imobilidade tão assustadora? Catalepsia é
isso? Preciso procurar um médico, contar o
que me atormenta.
- Deus, eu tenho de ser cremada!
E antes disso preciso urgente de um
psiquiatra.
“Mas o que vou dizer a ele, que tenho medo
de dormir sozinha? Ou que tenho pesadelos
rondando a minha vida, Deus do céu em que
momento da vida este monstro noturno se
esgueirou sorrateiramente pra dentro de mim?
Ainda sentada na cama lembrou-se de sua
infância, na pequena cidade do interior,
onde a noite os adultos se reuniam para
contar casos de assombração. Sempre teve
medo, mas sempre gostou destas histórias. De
fato não perdia nenhuma palavra do que era
contado. O cemitério da cidade também fazia
parte do imaginário popular, e as imagens se
sucediam. Mas isto foi há tanto tempo.
Novamente lembrou-se do cunhado. Não, nós
éramos muito amigos, ele não viria me
assustar. Mesmo assim acendeu novamente as
luzes do quarto. Então pensou nas portas de
saída trancadas. Quanta bobagem, este
inimigo se materializa onde quiser, antes
que eu chegue a porta ele já me aguarda
encostado a ela. O certo é que este
pensamento fez com que os cabelos dos braços
se arrepiassem e foi também sua última
lembrança da noite. Quando acordou passava
das nove horas. Então, desligando uma a uma
as luzes do quarto dirigiu-se ao banheiro. À
sua passagem as teias de aranha iam se
desintegrando. O barulho das crianças já se
fazia ouvir pelo quintal anulando qualquer
imagem de braços desnudos e descarnados nas
paredes. Então sem pressa penteou-se. Mas
apenas quando trocou a camisola azul é que
realmente acalmou-se, ficando aliviada,
leve.
O fato é que o chão e as paredes brancas do
quarto e do banheiro banhadas pelo sol iam
absorvendo e recolhendo os fantasmas, até
que finalmente as portas do dia se abriram e
Lucia sorridente e esquecida desceu para
tomar café.
Alberto, o marido provavelmente já tinha
chegado, esta noite não estaria só.