Círculos
Já
que não tinha outro jeito, Ester aceitou o
fato de ir ao encontro da filha que deveria
passar pela avaliação do cirurgião plástico.
Desde a cirurgia para implantação de
silicone havia se passado um mês e durante
este período, Flávia, não estava dirigindo.
Assim viria do trabalho diretamente para o
consultório aonde elas iriam se encontrar,
participar da consulta e voltar pra casa.
Não fosse o fato da cirurgia, não haveria
motivos para isso. Flávia é uma mulher
adulta, ou pelo menos é o que se espera de
alguém com 26 anos.
Neste momento o telefone tocou:
- Mãe?
...
- Você vem me encontrar?
...
- Tá, então até as quatro.
...
Aborrecida Ester consultou o relógio,
felizmente era cedo - onze horas.
- Arre, ter de atravessar a cidade no meio
da tarde. Pôxa! Ninguém merece! Será que não
tinha nenhum cirurgião competente mais perto
de casa?
E ainda contrariada, continuou a catalogar
os livros recém entregues pelas editoras.
Nem bem retornou ao trabalho o telefone
tocou novamente. Mas desta vez era assunto
profissional.
E as horas foram passando. A pequena
livraria que leva seu nome fica próxima a
sua casa, tem quinze anos e desde a
inauguração conta com um público bem fiel.
Inicialmente era apenas um sobrado, mas com
muito bom gosto Ester o transformou. Então a
antiga sala hoje é a recepção, onde fica
mesinha, telefone, maquininhas para cartões,
divisões para livros. Já onde teria sido a
cozinha, resta a pia, como último vestígio,
pois por todos os lados foram colocadas
prateleiras e bem no meio do cômodo está o
computador. Lá em cima ela manteve os sonhos.
Sim. Pois são os dois antigos quartos, que
se hoje não abrigam camas, abrigam livros em
toda extensão das paredes. Livros de cima a
baixo. Bem arejados! E é lá que pelo chão de
taco, tapetes coloridos e puf’s, nas tardes
de contos a criançada e os adultos se
espalham e viajam. Um bom espaço! Gostoso!
Nas janelas filtros de sonhos com suas penas
balançando ao vento completam o cenário.
Ali, na antiga cozinha, com os livros
empilhados ao seu redor Ester senta-se no
chão, cruza as pernas e com a prancheta
sobre elas anota um a um. Mas demora-se,
pois sua mão desliza com suavidade pelas
capas dos volumes, os dedos se perdem na
textura dos papéis e os olhos distraem-se
com a impressão. Ainda bem que conta com
mais duas ajudantes, que na recepção dividem
com ela o trabalho de catalogar os recém
chegados.
Assim, entretida com o trabalho, a mulher se
renova, esquece. O cheiro de livro novo lhe
traz lembranças, recordações antigas. Lê
pequenos trechos. Sonha! Finalmente o
barulho da rua a alcança. E a algazarra das
crianças saindo de uma das escolas próximas
dali a traz de volta ao seu dia.
(Como seria bom se sobrasse um tempo para eu
tomar um banho antes de sair.)
Mas quando olhou o relógio, viu que embora
morasse na rua de baixo, o máximo que
conseguiria seria comer alguma coisa
rapidamente e trocar de roupa. E assim o
fez.
Enquanto aquecia o prato no microondas foi
se descalçando, tirando a blusa, abusando do
desodorante. Quando o apito avisou que a
comida estava quente Ester já estava vestida
novamente. Uma calça preta substituiu o
jeans da manhã e uma bata solta preta, com
um pouco de brilho no decote completava a
vestimenta.
(Gosto desta roupa me deixa mais magra).
Ainda descalça, com o prato na mão olhou
sobre a mesa da sala em busca dos brincos.
(Onde larguei aquelas argolas!)
Mas retornou a cozinha onde se sentou para
comer. De volta ao banheiro, escovou os
dentes, penteou os cabelos loiros, na altura
dos ombros e enquanto passava batom voltou a
se preocupar com os brincos.
(Cadê, será que Flávia pegou?)
E movimento contínuo, esvaziou sobre a
cômoda do quarto uma pequena caixa cheia de
bijuterias.
As argolas grandes deslizaram sobre a
madeira.
(Olha vocês aqui, disse a mulher enquanto
passava perfume e tornava a se observar.)
Calçou rapidamente os saltos eternamente
altos e não disse nada, apenas sorriu com
aprovação para a imagem refletida e saiu.
Por certo atravessar a cidade no final da
tarde não é um ato simples e aquele dia não
foi diferente, o trânsito estava complicado
e embora ela tivesse saído com antecedência
percebeu que se atrasaria.
Então quase chegando ao endereço e pensando
nas três vagas existentes na porta do
consultório, e que dificilmente ficam
desocupadas, optou por entrar uma travessa
antes do endereço e estacionar. Conseguiu um
lugar lá embaixo, no início da ladeira,
trancou o carro, e fez toda a subida. Talvez
uns 200 metros. Quando finalmente chegou não
conseguia entrar na República do Líbano, a
calçada acabava e os vasos de flor mais o
poste que delimitavam o estacionamento do
consultório, na esquina, exigiam que se
passasse quase que pela rua. Então, ficou
aguardando que o farol fechasse. Um tanto
quanto distraída foi chamada atenção pela
quantidade de buzinas. Não se via nada que
justificasse, até que percebeu um carro
prata parado na pista do meio. Aquele
estardalhaço todo tinha como objetivo fazer
aquele carro andar. Mas, preocupada com o
horário, ainda tentou ver se a confusão iria
permitir que ela fizesse o contorno. Não.
Tinha mesmo de aguardar.
Só então olhou novamente o carro parado. E
tornou a olhar. De dentro do carro uma
mulher acenava insistentemente.
Ester olhou pra trás. Ninguém. Tornou a
olhar o carro. A mulher buzinava e
gesticulava em sua direção.
(Não pode ser.)
Mas era. A mulher dentro do carro que
tentava fechar o da pista da direita
acenava, para ela. E agora vinha em sua
direção. Assustada Ester recuou, embora não
tivesse para onde ir. E assim, quando o
carro chegou próximo a ela, outra mulher no
banco do passageiro abriu o vidro,
estendeu-lhe um cartão e falou bem alto
enquanto a motorista abaixava a cabeça e
concordava.
- Olha, minha amiga disse que ficou muito
impressionada com você. Nisso a motorista
tomou a palavra.
- Olhe, gritou, estou vendo que você está
passando por grandes problemas, por favor,
me ligue. Eu sei que fui enviada para te
ajudar. Eu vejo e compreendo toda a tua
angústia.
- Que foi?
- Pegue vamos, disse a passageira, ela é uma
pessoa muito espiritualizada.
- Me ligue, gritou novamente à motorista.
Não deixe de ligar. Eu sei que posso te
ajudar. Compreendo essa angústia como
ninguém.
Não fosse pelas buzinas novamente, já que a
mulher simplesmente parou o transito, Ester
não teria pegado.
Mas não teve escapatória. Não conseguia
passar, o transito caótico exigia que se
resolvesse logo o assunto e então pegou. E
ali ficou, parada, vendo o carro se
distanciar.
Em um primeiro momento olhou-se. Estava bem
vestida.
(Será que a roupa preta deu impressão de
luto? Bobagem, hoje em dia nada significa
nada. Os ritos foram deixados de lado.)
Já em outro instante leu o cartão que tinha
nas mãos.
“Astróloga Vidente – Conselheira Orientadora
– Pofessora Camila – Cura espiritual revela
seu futuro, faz e desfaz qualquer trabalho,
traz a pessoa amada na palma da mão a queda
de lucro na sua lavoura, indústria e
comércio, etc... Faça hoje mesmo sua
consulta. Búzios, Taro, Cartas.”
E no final o telefone fixo, um celular e um
número de rádio, todos de Campinas.
Ester não chegou a dar nem uma segunda
olhada, o farol fechou, ela jogou o cartão
na bolsa e entrou no consultório.
Como previsto, estava tudo bem, a consulta
foi rápida e logo saiam mãe e filha para a
rua. Desta vez menos agitada, Ester notava o
transito intenso, e se perguntava por que
uma pessoa se daria ao trabalho de escolher
tão aleatoriamente alguém. Sim, por quê?
Até que gostaria de dar uma nova olhada no
cartão, observar o papel, o timbre a
escrita. Quem sabe essas informações lhe
traçassem um perfil da mulher, que de cara,
ela imaginava aproveitadora da boa fé
alheia.
Por outro lado, pensando bem sobre o assunto
o carro da dita cigana, era novo.
(Ta certo que não conheço muito sobre
carros, mas um Honda é dos que custam mais
que a maioria.)
De qualquer forma, não gostaria de partilhar
o assunto com a filha, que tinha uma
credulidade e curiosidade quanto às
possibilidades de se falar hoje sobre o
amanhã incríveis.
Mesmo assim não resistiu. E a filha se
entusiasmou:
- Liga pra ela mãe, não custa nada. Quanto
muito uma consulta, vamos lá. Quem sabe a
gente tenha alguma surpresa agradável.
- Que surpresa agradável Flávia? E tirando o
cartão da bolsa revirou-o nas mãos, Ester
olhava o papel: boa impressão, escrita
correta. Sem erros. É possível que alguém
tenha o dom de avaliar ou saber coisas sobre
o futuro? Ah! Claro que não, concluiu.
- Mãe, ela nunca te viu, nem viu teu carro
nem nada. Como ela vai saber se você é
pessoa de condições ou não... Pra mim ela
percebeu que você é uma pessoa carente:
- Carente? Eu e toda a torcida Corintiana
né? Deixa disso Flávia, ela jogou verde.
- Pode ser, mas porque você? Hein me diga?
Parar o trânsito, fechar outros carros para
uma provável cliente?
- Claro, eu quando aposto em uma nova escola
para meus cadastros quase faço isso.
- Sim, mas não arrisca ter prejuízos
amassando ou derrubando outra.
Em casa a conversa foi esquecida até o
jantar, quando Flávia entusiasmada contou
para o pai, que embora surpreso, concordou
com a mulher.
- É enrolação mesmo. Os golpes estão mais
refinados. Parar alguém na rua chama
atenção. Não chamou a tua?
- Claro que chamou.
- E aquelas bandas têm muitos ciganos, nem
todos vivem na rua.
Ainda assim Flávia era de opinião que a mãe
devia ir escutar o que a mulher tinha a
dizer. Então, mais tarde a sós com a mãe
abriu o jogo.
- Veja só mãe, você não se dá conta, mas
ultimamente quase não sai de casa. O pai só
gosta mesmo de ver televisão. Você está cada
dia mais enfronhada na livraria e nos
livros. Isto é solidão. Quem sabe ela
conhece ou pode te ajudar a achar a saída.
Pensou, sacudir este marasmo todo?
- Ficar sozinho nem sempre tem a ver com
solidão filha. Já pensou que eu talvez
goste?
- Ah, não, você não. Olhe se quiser eu vou
com você, está bem?
Antes de se deitar, Ester considerou as duas
escolas que ainda não tinham retornado sobre
a data da feira de livros. Até aquele
momento, isso não tinha sido incomodo
nenhum. Sempre acontece, as escolas se
esquecem das datas e no último instante
telefonam aflitas obrigando-a a encaixá-las
na sua agenda. Mas hoje...
- Será que arranjaram outra livraria? Quem
poderia ser? Aqui no bairro não conheço mais
ninguém no ramo, só se as livrarias dos
shoppings resolverem enveredar por este
caminho. Duvido!
Mas neste momento seu olhar divagou,
lembrando-se da cena na rua.
- Fui enviada para te ajudar...
Logo pela manhã, Ester entrou em contato com
as duas escolas remanescentes. Nenhumas das
duas tinham posição quanto à feira de
livros. Atividades extracurriculares
impossibilitavam, pelo menos por enquanto a
montagem.
Tudo perfeitamente plausível, pensou Ester.
E voltou ao trabalho.
E assim o mês transcorreu. Agitado. Rotina
intensa. Então uma noite, sem conseguir
dormir ela levantou-se e notou que o marido
não estava na cama. Preocupada desceu as
escadas a sua procura. Renato falava
tranqüilo e alegremente ao telefone, porém
quando a viu mudou, fez cara de preocupado,
alterou o tom da conversa. Não tinha o
hábito de perguntar ou investigar o marido,
mas sentiu que não era normal. Então, quando
ele desligou o telefone ela questionou.
- Quem era Renato?
- O chato do fornecedor de Campinas, lembra?
Passei a tarde toda atrás dele e nada, me
ligou agora. Você não dormiu ainda?
- Já, respondeu a mulher sentindo-se
insegura. Mas o marido colocou o braço em
seu ombro e ambos voltaram para o quarto.
Antes de adormecer, Ester olhou o relógio...
Duas horas da manhã. Ainda sonada pensou -
que fornecedor liga de madrugada?
Só voltou a considerar o incidente no
horário do almoço, quando mais relaxada
tornou a pensar no horário. Nunca teve
motivos pra duvidar do marido e também não
era mulher de ciúmes. Mesmo assim achou
estranho. Então passou a prestar atenção
nele. Nos horários, nos telefonemas
furtivos, nas poucas conversas que tinham.
Sempre achou que este quadro fazia parte do
tempo que estavam juntos. Quase trinta anos.
Não é assim com todos? Embora incomodada
também prestou atenção em si mesma. Não
sentia disposição para investigar, de alguma
forma, não lhe interessava. Por certo as
eternas colocações de Flávia sobre seu
casamento começavam a fazer sentido.
- Vocês nem parecem casados. Nunca estão
juntos pra nada mãe. É verdade que não
brigam, mas também não conversam. Que
diferença faz?
(Se ela soubesse quanta verdade há nisso.
Gosto do Renato, mas gosto mais de estar
sozinha, com meus livros, no meu trabalho.)
Agora ela começava a sentir os espaços,
grandes e solitários a sua volta. A avidez
com que devorava histórias de triângulos
amorosos, de relacionamentos complicados. A
alegre possibilidade com que via o olhar de
alguns homens completamente comprometidos.
(O que acontece comigo? Tudo me parece tão
natural. Flavia tem toda razão, ando
carente.)
Algum tempo depois ao sair de uma das
escolas foi abordada pelo novo diretor. Um
homem interessante pensou Ester. Também
notou que muito embora o assunto fosse
profissional a todo instante ele se mostrava
sedutor.
- Como você sabe acabei de comprar esta
escola. Tenho outra, mas pretendo me dedicar
bastante a esta, gostaria muito de sua ajuda
já que conhece bem o bairro e as escolas
daqui... Quando finalmente o assunto acabou
e ela se dispôs a sair veio o convite:
- Não gostaria de almoçar comigo? Poderíamos
nos conhecer melhor, quem sabe bolar uma
parceria?
Ato reflexo Ester olhou para a mão esquerda
de Bernardo. A aliança brilhava por ali.
Mesmo assim, sustentando o olhar dele,
aceitou o convite.
Já se tinha passado um bom tempo. Parada
frente às prateleiras repletas de livros,
Ester sentia, que de lá para cá, a sedução
se tornou envolvimento. A mulher frente aos
livros usava roupas coloridas e tinha brilho
no olhar. As argolas grandes brilhavam ao
sol, enquanto o cabelo agora cortado curto
descobria uma nuca delicada. Enquanto olhava
os novos títulos, esotéricos, sugeridos por
Bernardo ela se dava conta de que realmente
tinham feito uma parceria. Uma grande
parceria.
Ainda pensava nisso quando o telefone tocou.
- Livraria Ester, bom dia!
- Quem está falando?
- Ester.
- É com você mesmo que eu quero falar. Eu
sou Sandra esposa do Bernardo.
Silêncio.
O certo é que naquela noite, em casa, Ester
procurou pelo cartão da Professora Camila e
pela manhã ligou, bem cedo, marcando
consulta.
Com certeza a voz do outro lado da linha era
comum, o que lhe proporcionou tranqüilidade.
Óbvio que não estava em um momento normal de
sua vida, pois se estivesse, pensou, não
estaria me lançando por caminhos tão
improváveis. Mesmo assim, sentia que
precisava deste amuleto, muleta, carta
marcada, fosse o que fosse.
Então logo depois do almoço rumou para
Campinas, afinal o horário da consulta
estava marcado para as 16h00minh. Durante o
percurso Ester se perguntava o que na
verdade iria dizer a ela.
(Bobagens do tipo, devo ficar com Bernardo?
Devo ficar no meu casamento? Acalmo este
turbilhão que tem me rondado e volto à
tranqüilidade do antigamente?)
Não, não iria perguntar nada. A adivinha era
a tal da mulher.
(Ainda bem que tenho a livraria. Mesmo que
nada dê certo, lá eu fico em paz. Sem
dúvida, ela é meu único amante. Mas para
este amor provavelmente não preciso de
respostas, afinal mulher que procura
cartomante quer é falar de homens, de sexo.
O que eu gostaria mesmo, mesmo é de saber o
que diabo anda me acontecendo, nunca fui
destas coisas, nem de crenças malucas e
agora me vejo indo a outra cidade só porque
uma cigana resolveu me tirar algum dinheiro?
Bem, na verdade, ultimamente tudo me empurra
pra lá. (Por mim mesma, de caso pensado,
jamais.)
Pois bem, ao chegar a Campinas, procurou e
achou facilmente o endereço e teve segundo
ela uma boa surpresa. A tal da professora
Camila tinha uma casa normal.
(Será que eu esperava uma tenda?)
A mulher pensou e riu-se de sua imaginação,
enquanto reparava no jardim bem cuidado,
algumas árvores frutíferas no canto do muro
com garrafinhas de água, penduradas,
possivelmente doce, e pratinhos com pedaços
de fruta. O muro nem alto nem baixo, deixava
ver alem do jardim a escada que dava para
uma antiga varanda, onde duas cadeiras e uma
mesinha com um vaso de samambaia sobre ela
completavam a decoração. Nada de gatos
pretos dormindo ao sol ou rondando a casa.
(Realmente é como se eu estivesse entrando
em casa de minha mãe, ainda bem, nada de
objetos mágicos pendurados. Nem sinos, nem
coisa nenhuma.)
Então, recompôs-se e tocou a campainha.
Logo uma moça jovem, abriu sorridente a
porta.
- Boa tarde, eu tenho hora com a professora
Camila.
- Ah, você é Ester, não é? Venha ela está
esperando.
E descendo rapidamente os degraus, abriu o
portão e se postou ao lado para que ela
passasse.
(É a moça também parece normal, podia ser
minha filha.)
Subiu os degraus, a jovem correu a sua
frente escancarou a porta de entrada.
Não fosse pela mesa redonda e pequena no
canto direito, próxima a janela, coberta com
uma toalha de renda que ia até o tapete e as
cartas dispostas sobre ela a sala era comum.
(Novos ciganos - pensou e sorriu.)
- Ester. A voz surgiu antes que a figura da
mulher entrasse em seu campo de visão. Ela
voltou os olhos, e na porta que dava para a
parte interna da casa estava uma mulher
alta, forte, de cabelos e olhos claros.
Idade indefinida.
Nervosa, Ester nem se ateve muito à figura.
- Sim, sou eu, muito prazer.
- Você demorou a ligar. Aquele dia...
Então a cigana calou-se e deixou o olhar
cair sobre as cartas que se encontravam
sobre a mesa. Como se estivesse perdida em
lembranças encaminhou-se até lá e sentou-se,
voltou o olhar para Ester e com um gesto
sugeriu que ela fizesse o mesmo.
- Você estava dizendo que naquele dia...
- É naquele dia eu vi em você a carta do
enforcado.
- Como assim, e sua voz denotava
preocupação.
- Você conhece as cartas do tarô Ester? Sabe
o significado delas?
- Não, nada.
- Então vou colocá-las. Acho adequadas nesta
situação porque o tarô pode revelar sempre
um novo caminho ou uma nova postura frente
ao que se pretende atingir. A mulher falava
e embaralhava as cartas com tranqüilidade.
- Agora pense nelas como um alfabeto.
Simbólico claro, composto por imagens
arquetípicas que se baseiam na vida humana
no que ela tem de mais complexo que é o
sentido de começo meio fim. Ou entenda como
preferir, um diagrama da vida, uma mensagem
do inconsciente ou até a ponte entre o plano
terrestre e o espiritual. Se você encarar
assim, o tarô serve tanto para uma
orientação psicológica ou terapêutica quanto
para a adivinhação ou predição do futuro.
Muita gente o considera fabuloso para o
autoconhecimento.
Ester quase não a escutou seu pensamento
estava em outra coisa que ela havia dito
logo no começo:
- Não entendi porque a carta do enforcado?
Me viu morta?
A mulher sorriu.
- Não, o enforcado é a carta do paralisador.
O que vi foi uma pessoa paralisada, sem
ação, sem ânimo. No mais completo desamparo.
Como imagino que você tenha perguntas
importantes para fazer, vou colocar apenas
os arcanos maiores.
- Vamos lá, concentre-se. Agite seu
inconsciente, pois é ele que vai tirar as
cartas.
Sem dúvida o próximo minuto foi de silêncio
completo. Claro que a consultante já não se
sentia tão segura.
E mesmo assim foi tirando suas cartas...o
enforcado, a Sacerdotisa, o mago, o eremita,
a temperança e a lua. Evidente que sobre
todas recebeu explicação e de certa forma se
encaixavam realmente a sua pergunta
interior, suas inseguranças, seus desejos
secretos.
Assim durante muito tempo escutou, a voz da
mulher vinha como que de outra era.
Inclusive deixava bem claro, que falava
sobre seu interior profundo, lado escuro, na
história do sábio que cura a todos e não tem
remédio pra si, falou em dosar sal e açúcar,
conhecer melhor a si própria.
Antes de sair, Ester demorou-se um pouco,
não sabia como perguntar o preço então na
dúvida, tirou a carteira esperando que o
gesto desencadeasse a conversa sobre o
valor. Então ficou surpresa.
- Não, hoje você não paga. Só te enxerguei
do meio da avenida porque me foi mostrada, a
espiritualidade tem seu próprio trabalho e
avisou que eu tinha de estar com você. É o
ciclo da vida unindo as pessoas. Mas não se
esqueça que mudanças internas provocam
acontecimentos externos e estes provocam
mudanças internas. E sem demora, sem dar
tempo para que a mulher tentasse novamente,
sorriu e rapidamente sumiu pela porta que
dava acesso ao interior da casa. Nem bem a
cigana deixou a sala e já a jovem que a
recebeu apareceu e acompanhou até a porta.
O certo é que já se fazia noite, sózinha na
calçada Ester experimentava um sentimento
confuso, as informações eram muitas e novas
para ela.
(O que foi mesmo que ela disse, que o tarô
não é fechado, ele permite, alterar o curso
das escolhas que se faz?)
E ela sentia que tinha de se utilizar desta
chance que a vida teimava em lhe oferecer
independente dela achar que precisava ou
não.
Tudo ainda era muito vago e de volta para
casa, teve dificuldade em conciliar o sono.
O certo é que no dia seguinte, não se
levantou ao toque do celular, deixou-se
ficar na cama mais um pouco. E mais tarde
quando passava manteiga no pão e tomava um
gole de café, rememorava a conversa e se
sujeitava a sensações corriqueiras. O gosto
do sal da manteiga na língua. O calor da
xícara de café, nas mãos. O barulho da rua.
Fechou os olhos e ficou em silêncio, na casa
quieta, povoada de suas inquietudes.
Só bem mais tarde retomou suas atividades, e
aprimeira atitude foi ligar para Sandra e
marcar o encontro pedido. Então ao final da
tarde Sandra chegou acompanhada do marido,
que se mostrava, pareceu a Ester diminuído
de tamanho. Ou será que esta mulher é alta
demais?
Quando a discussão se iníciou, dava para se
perceber sim, o seu tamanho. Era alta,
imponente, muito mais alta porque Bernardo
não se fazia notar. Em nenhum momento se
mostrou acanhada, não demonstrou saber nada
dos sentimentos que uniam Bernardo e Ester
em parceria. Simplesmente veio para propor a
compra da livraria, já que o marido falava
tanto de lá. Também gostava de livros e
estava pensando em aplicar o dinheiro que
lhe sobrava. Apenas o homem se mostrava
quieto, incomodado, nem de longe lembrava o
sedutor que a livreira conhecia. Sendo
assim, Ester suspirou, agradeceu, e recusou.
Durante algum tempo ficou na porta vendo os
dois se afastarem. E ela seria capaz de
jurar que, para sempre.
Sandra carregando seu falso troféu,
satisfeita que fosse assim.
Já Ester, andou de prateleira em prateleira,
mas o sentimento não era de vazio, era um
sentimento novo de completude. Então começou
a separar livro a livro aqueles que falavam
sobre esoterismo.
Tinha poucos títulos e mesmo assim a idéia
era daquele homem pequeno que saiu pela sua
porta. Ainda escutava sua voz lhe dizendo,
deixa de preconceito, esoterismo tem hoje
muita procura.
Naquele dia quando fechou a livraria já
passava das 22h00minh tinha passado todo o
tempo olhando catálogos, anotando títulos.
Em sua cabeça fervilhavam idéias. Sim era
tempo de mudar, inclusive o nome da empresa,
deixá-la um pouco menos familiar e um pouco
mais integrada aos novos tempos. Durante
todo o caminho de casa só fazia pensar nas
mudanças.
(Não, Nova Era não, tem uma escola no bairro
com este nome. Quem sabe “Às Graças“, não,
podem achar que tem conotação religiosa.
Quero a livraria aberta a um grande número
de pessoas.)
Só quando entrou em casa deu-se conta de que
estava às escuras.
(Por onde anda Renato? E instintivamente
pegou o celular, apenas para constatar que
ele não tinha ligado pra ela, ato contínuo,
ligou pra ele.)
- Renato? Está tudo bem?
- Ester? Oi, sim está, por quê?
- Você já olhou o relógio?
- Nossa, nem tinha me dado conta. Está em
casa?
- Estou - você demora?
- Não, em meia hora chego.
- Está tudo bem mesmo?
- Sim, tem janta pronta?
- Ainda não abri a geladeira, mas acredito
que não.
- Eu levo uma pizza então. Tudo bem?
- Ótimo, vou tomar banho.
A mulher desligou o telefone, mas tinha uma
sensação engasgada no peito.
(Não, ali tem coisa.)
E pensando no que poderia ser, abriu a porta
e caminhando pela casa as escuras,
dirigiu-se a seu quarto.
Apenas de uma coisa tinha certeza. Renato
estava estranho, muito estranho.
Sem tatear pelas paredes, achou e acendeu a
luz do abajur. Gostava da casa às escuras.
Reconhecia-se, quem sabe precisava iniciar a
prática de mergulhar também dentro de si
mesma, nas suas profundidades, escuridões.
Como fazia todas as noites, abriu a gaveta
da cômoda frente a sua cama e tirou sem
olhar um pijama. Eram quase todos iguais -
tecido leve de meia manga e pernas
compridas. Independente da temperatura
externa tinha a sua própria, sentia frio.
Em sua cabeça visualizou duas cartas de
tarô, a lua e a sacerdotisa. As duas
retratam uma jovem, e as duas falam sobre
experiências no mundo do inconsciente.
(Talvez eu esteja mais para a carta da lua
mesmo, credo, ando sem direção, não sei o
que realmente sinto. O duro é essa
ansiedade, parece que estou à espera que as
coisas aconteçam pra que eu consiga enxergar
novamente meu caminho. Se continuar assim
tenho medo de morrer de tanta ansiedade.)
Realmente não era mulher de deixar as coisas
acontecerem, tinha de fazer acontecer.
Rapidamente tirou a roupa e nua dirigiu-se
ao banheiro. A água quente acalmava seu
corpo e seus pensamentos.
(Aquela cigana me deixou sobressaltada,
falou para si mesma enquanto o cheiro
gostoso do sabonete impregnava sua pele.)
Mais tranqüila, enxugou-se, penteou os
cabelos molhados e quando se virou para
pegar o pijama percebeu movimento na porta e
instintivamente gritou.
- Ester sou eu, quem poderia ser?
- Pôxa Renato, você sabe que me assusto?
- Que quer que eu faça, bati na porta, fiz
barulho no quarto.
- Não ouvi.
Renato virou-se e saiu do banheiro de cara
fechada. De cara fechada, Ester colocou o
pijama e se dirigiu a cozinha.
Quando chegou o homem já arrumava os pratos
sobre a mesa.
- O que está acontecendo Ester? Que mau
humor é esse?
- Eu, e você?
- Agora pretende jogar a culpa do teu mau
humor em mim né?
- Ta, então me diga por onde andou o dia
todo e até essa hora?
- E você por onde andava?
Por um pequeno atalho, o caminho principal
se desenhou, com queixas, culpas e
lamentações dos dois lados. Onde você estava
quando? Porque sempre estou só? Porque
sempre tenho de resolver? Porque está sempre
dormindo? Porque está sempre na televisão,
porque, porque, por que...
Renato quase não alterou o tom de voz, Ester
neste momento estava mais agressiva. Por
certo ele já tinha alguém pensou a mulher e
mais por impulso do que por raiva genuína
perguntou?
- Quem é ela Renato? Eu conheço?
- Não Ester não existe ninguém, mas a
pergunta é boa, quem é ele? Eu conheço?
Assim a discussão se estendeu por muito
tempo, a pizza mal foi tocada, de olhos
baixos, tanto um quanto outro estiveram
espetando pedaços que eram cortados e
recortados, simplesmente. Nunca chegaram à
boca.
- Sabe de uma coisa Ester, acho que
precisamos de um tempo.
Sem argumentos a mulher apenas levantou os
olhos. Não gostava que as coisas tomassem
esse rumo, mas pressentia o inevitável. Já
fazia tempo que a conversa estava sendo
deixada de lado. Não podia conceber que
esses anos todos de convivência acabassem
assim, frente ao prato de pizza, mas não
tinha nenhuma vontade de arrancar os cabelos
ou pedir pra reconsiderar.
Então passado algum tempo, começaram a
falar. Não havia sequer mágoas para cobrar o
outro. Impressionante. Nada havia para ser
dito, e mesmo assim se falaram por longo
tempo. A madrugada encontrou Ester na porta
olhando enquanto Renato com uma pequena mala
entrava no carro e saia.
Não conseguia identificar com clareza o
sentimento que a assaltava, mas pressentia
que este seria um ano de perdas.
Assim que o carro deixou os portões da casa,
ela entrou, fechou a porta, foi para a
cozinha. Colocou o restante da pizza em
sacos plásticos próprios para congelamento,
empilhou pratos, talheres e copos na pia
sacudiu a toalha.
(Quem sabe amanhã consiga chorar, por hoje
estou esvaziada. Ainda bem que Flávia esta
viajando, vou ter um tempo para repensar
sentimentos antes que ela retorne. Até lá
vou tentar dosar meu sal e meu açúcar... A
cigana antecipou minha parecença; naquela
ocasião eu não estava nem um pouco
paralisada. Hoje sim, não tenho ânimo para
discutir ou saber se quero ou não aquela
situação toda de volta.)
Sem escolhas, deitou-se e esperou que
amanhecesse.
Quando clareou Ester trocou a roupa
amarrotada e não voltou à cozinha, por
enquanto iria tomar café na padaria próxima
ao trabalho.
E os dias se sucederam, no começo evitou ao
máximo voltar cedo para casa, a chegada de
Flávia trouxe companhia novamente, mas não
um novo alento.
- Acho que vocês demoraram muito mãe, faz
tempo que estou avisando... Qualquer um via
o que estava acontecendo, menos você.
Assim Ester voltou a se envolver com o
trabalho, de Renato sentia falta quando
jantava sozinha, ou quando acordava
assustada no meio da noite. Amiúde se
entretinha demais em meio aos livros até que
passado um tempo Renato ligou:
- Oi Ester, queria saber como você está.
-...
- Olha, estava pensando em chamar a Flávia
pra jantar, acho que está na hora da gente
conversar.
- Acho que já deviam ter se falado. Faz
tempo que estou esperando essa tua
iniciativa.
- É você sabe como ela é comigo, sempre
muito arredia, mas é minha filha, precisamos
conversar.
- Arredia ela?
- Pronto, já vai você começar de novo.
- Claro Renato, você nunca toma a iniciativa
de nada.
- E você toma todas, não é?
Daí para frente à discussão que até então
tinha sido evitada explodiu, e nas outras
vezes em que conversaram acabaram por
brigar.
Após o segundo mês Renato ligou quase
diariamente, como Ester estivesse calma, ela
assim imaginou, ele começou a falar em
vender a casa. Depois disso se deixou ver
acompanhado. E a cada nova investida, muito
longe de despertar ciúme reforçava nela a
certeza de que realmente era hora de cuidar
da própria vida.
Assim continuou revendo os títulos da
livraria pesquisou sobre esoterismo e se viu
encantada lendo e aprendendo sobre tarô, que
por sua vez lhe remeteu a conceitos, novos,
para ela, sobre psicologia.
Então os espaços foram reformulados, o
público alvo começou a se modificar sem
perder os anteriores, o movimento cresceu.
Seu próprio espaço alterou. Flávia e o
namorado que já vinham pensando em morar
junto, concretizaram o ato.
(Será que foi essa solidão que a taróloga
viu em mim? Mas esta não me pega, pelo
contrário nunca me senti tão em paz. Ou foi
esta mudança toda em minha volta que já se
fazia notar e eu não via?)
Sobre sua mesa de trabalho cartões de
terapeutas, era a filha, era a amiga, todos
querendo que ela procurasse ajuda.
Por duas ou três vezes chegou a ligar
marcando consulta para em seguida desmarcar.
Não conseguia se imaginar falando sobre si
mesma.
Mas sentia que precisava não apenas de
leituras como vinha fazendo, mas de outras
conversas. E assim após muito hesitar ligou
e marcou retorno com a professora Camila.
Aquele caminho menos compromissado a deixava
mais a vontade.
Algumas cartas se repetiram - a sacerdotisa,
a lua, o eremita. A carta do sol era a
grande novidade se contrapondo, pensava ela,
a do enforcado.
Já tinha encomendado um livro que alem de
falar sobre tarô mandava um conjunto de
cartas. Estava fascinada.
Desta vez e de outras em que lá esteve se
mostrou mais leve, assimilou com mais
facilidade as palavras da mulher, e buscando
nos livros foi encontrando ajuda.
(Sou pessoa do meu caminho.)
Com o passar do tempo, Renato também se
aquietou, a posse que sentia em relação à
mulher ia aos poucos sendo substituída,
mesmo assim queria voltar ao conhecido.
(Não é possível pensou Ester, agora Renato
deu pra me seguir, e dizendo isso parou na
esquina da sua casa, só para confirmar se
era mesmo o ex-marido. Depois destes meses
todos, agora deu para me seguir. Qual é?)
Ostensivamente fixou o olhar no carro.
Renato não teve jeito, não tinha como fingir
não vê-la e assim parou.
- Estava passando por aqui...
- Ontem também não é? Porque não me chamou
ou simplesmente foi até a livraria... Está
precisando falar comigo? Se for sobre a
venda da casa, pode ficar a vontade.
- Não, passei por aqui e queria saber se
está tudo bem com você?
Assim a conversa se estendeu por uns dez
minutos e deu a Ester uma certeza gostava e
admirava Renato, mas não queria voltar.
Talvez jamais houvesse se separado, mas
aconteceu e ela estava bem assim. Flávia
vinha insistindo para que ela saísse mais e
se abrisse a novos relacionamentos.
- Mãe tem de arranjar alguém, sair, deixar
rolar. Não precisa dar certo, precisa só te
fazer bem.
Flávia insistia muito nisso, talvez até por
se sentir culpada de ter saído de casa, mas
Ester não pensava assim.
- Sabe filha agora o que mais quero é um
apartamento pequeno, como eu tinha logo que
me casei, até parece um círculo, uma
retomada. É claro que um novo relacionamento
seria bem bom. Mas sobre isso no que
depender de mim... vou deixar acontecer.
- Cada vida corre no seu trilho. E estes
trilhos são sempre circulares.
De volta à livraria ela só pensava nisso,
círculos, circulares, onde tinha lido isso.
Então se lembrou - mandala, do sânscrito,
significa círculo. Há quem acredite que seja
uma representação geométrica do universo.
- Hum meu pequeno universo...
Foi procurar no dicionário e achou:
“segundo a teoria junguiana, círculo mágico
que representa simbolicamente a luta pela
unidade total do eu”
Enquanto o pedreiro terminava de colocar a
placa colorida, Ester do outro lado da rua
examinava o efeito do letreiro em forma de
mandala onde se lia Círculos Livraria.
Já havia feito toda alteração necessária e
de noite teria uma pequena recepção para
alguns amigos e clientes chegados
comunicando a mudança. Então ao atravessar a
rua um carro parou e escutou uma voz lhe
chamando.
-Ester? Lembra-se de mim.
Durante alguns momentos ela fixou os olhos
até que a memória trouxesse a lembrança.
- Claro Marcio não é? Estudamos juntos no
colegial.
- Namoramos no colegial é o que você não
quis dizer? E riu um riso aberto.
- Sim, mas foi só um namorico.
- É, mas foi. Como vai você?
Ester olhava Marcio e em sua mente se
desenhava à roda da fortuna. “E via tão
claramente que era como se pudesse tocar as
três mulheres sentadas dentro de uma caverna
escura. A primeira é jovem e tece em uma
roca dourada. A segunda é elegante e madura,
e mede o comprimento de um fio entre as
mãos. A terceira é de mais idade e segura um
par de tesouras. No centro, entre elas, há
uma roda dourada ao redor da qual quatro
figuras humanas são colocadas em posições
diferentes. Pela abertura da caverna um
cenário com muito verde se deixa ver.”
- Que foi Ester?
- Nada, tem compromisso para esta noite?
Quando Marcio foi embora Ester correu para
seus livros, procurou e achou a explicação
sobre a roda da fortuna que via no antigo
namorado. Dizia assim:
“Entretanto, a carta da Roda da Fortuna não
diz respeito às mudanças bruscas da sorte,
do acaso ou por acidente. Atrás da Roda
estão as três moiras que planejam de maneira
inteligente e organizada as aparentes
mudanças aleatórias da vida. Essas figuras
antigas estão dentro de nós, bem no fundo do
útero do inconsciente, e não fazem parte da
personalidade consciente. Nós somente às
percebemos por meio dos efeitos externos que
parecem ser obra do destino, mas que surgem
das profundezas de nossa alma e não de um
poder externo. Na realidade, a experiência
da Roda da Fortuna é a vivência daquele
“Outro” dentro de nós que, geralmente,
projetamos no mundo exterior para poder
culpar as pessoas, além de nós mesmos, pelas
bruscas mudanças da sorte. O giro da Roda da
Fortuna nos obriga a estarmos conscientes
desse “Outro”, o movimento inteligente que
está por trás da Roda e que é o destino que
todos temos dentro de nós mesmos. A imagem
da própria Roda é profunda, pois seu aro
giratório assemelha-se ao cenário em
constante movimento com o qual nos deparamos
durante a vida; porém o eixo está sempre no
centro, uma essência ou fonte constante e
imutável. O eixo é como o “eu” oculto que
“escolhe” voltar-se para as várias
situações, acontecimentos, caminhos e
pessoas. O Destino não vem ao nosso
encontro; ao contrário, somos nós que nos
dirigimos a ele”.
Ester apoiou o livro sobre a mesa.
Pensativa, levantou-se, e olhando pela
janela sorriu:
- A vida seria mesmo um círculo?